Azul é a cor mais quente: polêmico filme francês é sucesso de público e crítica


O tempo nublado do último sábado (07) pode ter dado uma parcela de contribuição. Mas não foi só o clima que não combina com o Rio de Janeiro que provocou uma corrida em série às salas de cinema. Os cariocas estavam ansiosamente esperando a estreia de “Azul é a cor mais quente” (La Vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2, 2013),  dirigido pelo franco-tunisiano Abdellatif Kechiche. O filme conseguiu um feito inédito:  a interpretação das protagonistas, Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, foi reconhecida com a Palma de Ouro na edição mais recente do Festival de Cannes.  Antes, apenas o diretor recebia tal distinção.

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Baseado numa graphic novel de Julie Maroh, o longa de Kechiche acompanha a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos). Na adolescência, a garota dedica seu tempo a coisas muito simples, como ler, escrever no diário e comer o suculento espaguete preparado pelos pais. Na escola, Adèle tenta namorar um garoto, mas após os beijos e o sexo, não se sente realizada. É numa faixa de pedestre em uma cidade francesa que pela primeira vez a adolescente se depara com os cabelos azuis chamativos de Emma (Léa Seydoux), com quem – algum tempo depois – se encontra numa boate gay e, gradualmente, inicia um relacionamento amoroso. A partir daí, o foco principal, quase único do filme, passa a ser o amadurecimento da protagonista e o do relacionamento amoroso com Emma.

Cartaz oficial do filme

Cartaz oficial do filme

A sensação para nós, os espectadores, é de invasão dos sentimentos, das emoções, dos desejos e da intimidade de Adèle. Na busca da personagem principal por compreensão, acompanhamos a solidão, os sorrisos, a frustração e o prazer sentidos por ela. Essa percepção que nós temos é causada pelas opções estéticas da direção magistral de Kechiche, que roda o filme da maneira mais próxima possível das personagens a partir de planos fechados, closes e supercloses. Mais do que uma boa direção, a entrega das duas atrizes garantiu a força de “Azul é a cor mais quente”. As atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux estão brilhantemente tão naturais que não seria estranho questionar se o longa é realmente um filme de ficção.

"Azul é a cor mais quente" é um filme muito além de um romance lésbico

“Azul é a cor mais quente” é um filme muito além de um romance lésbico

Durante as quase três horas de exibição, a personagem é literalmente seguida muito de perto, desde em ações triviais, no trabalho – depois de concluir os estudos, Adèle se torna professora de alfabetização – e até mesmo na hora do sexo. É nesse último ponto que reside a principal polêmica de “Azul é a cor mais quente”. A sequência em que Adèle transa pela primeira vez com Emma tem duração de 15 minutos. Para alguns, pode parecer extremamente longa, mas o sexo faz parte de um pano de fundo bem maior e mais complexo, que são as descobertas da personagem principal, incluindo a conquista do pleno prazer. Tanto é que, nessa sequência tão comentada, o diretor não se apega apenas em exibir às partes íntimas das atrizes, mas também coloca em evidência por diversas vezes os rostos, que vão enrubescendo ao longo das cenas,  e à reação dos corpos durante o ato sexual.  É por esse motivo que as cenas de sexo de “Azul é a cor mais quente” apresentam um nível de intimidade pouco visto no cinema.

A busca pela naturalidade, porém, não foi obtida facilmente. Kechiche não poupou limites para obter as melhores interpretações das duas jovens atrizes. Conforme a revista O Grito, o diretor forçou as duas atrizes a repetir a mesma cena mais de 20 vezes. A longa sequência de sexo foi filmada diversas vezes em vários dias, levando a intérprete de Emma a afirmar para o jornal “Le Monde” que estava se sentindo como “uma prostituta”. Outra queixa foi um pedido do diretor para que se agredissem de verdade numa cena de briga, além de terem sido impedidas de ler o script mais de uma vez e proibidas de usar qualquer tipo de maquiagem.

Ainda há espaço no longa para explorar outros temas, entre eles a diferença de classes sociais e a homofobia, mas tudo de maneira bem sutil, pois não se trata de um filme militante de determinadas ideologias e nem de causas LGBT. A sutileza na referência a esses temas também evita que se vá muito além do foco principal: o amor e sexo entre Adèle e Emma.

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O diretor Abdellatif Kechiche rodeado pelas atrizes protagonistas Léa Seydoux (Emma), à direita, e Adèle Exarchopoulos (Adèle), à esquerda

Após o sucesso em Cannes, é dado como certa a indicação do longa francês nas principais categorias do Oscar, entre elas, melhor diretor, melhor atriz e até melhor filme. Será que o filme europeu conseguirá arrebatar esses prêmios na premiação americana? Vamos aguardar o próximos capítulos de La Vie d’Adèle!


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Vinícius Vieira

Author: Vinícius Vieira

Sagitariano carioca que morou no Nordeste e agora está de volta à Cidade Maravilhosa. Aspirante (há algum tempo) a jornalista, passando pela UFRN e UFRJ. Apaixonado por cinema, praia, bundas masculinas e por Pernambuco. Um tanto non-sense se considerar esse perfil em linhas gerais. Ou completamente lógico, se se considerar as paixões desse rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes. Escreve às segundas-feiras, quinzenalmente.

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