Conheça Loki, um coletivo criativo de jovens artistas independentes

Entre tantos coletivos jovens e independentes espalhados pelo Brasil, eu tive a felicidade de conhecer a Loki., uma reunião de grandes artistas – jovens! – de todo o Brasil, que visa publicar um material autoral e de alta qualidade.

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 Jopa Moraes, Calvin Voichicoski, Pedro CobiacoNicole Kouts, Victor h., Julia Balthazar , Matheus Aguiar, Felipe Nunes, Vika Albino, João Montanaro, Karina, Rafaella (Momorsa) e Gustavo não são os nomes do futuro: eles já estão na lutcha.

Conversei com o Pedro, fundador do coletivo, com o Jopa, co-editor, e com Victor, um ”cangaceiro” que faz parte da Loki. O papo você confere abaixo:

O CHAPLIN: O nome Loki., afinal, veio de onde?

PEDRO: Do disco do Arnaldo (Baptista), mesmo. E da sensação que a gente sempre vai ser  visto como louco por todo mundo (não discordo dessa opinião).

O CHAPLIN: O que vocês sentem quando estão desenhando algo que vocês queiram?

VICTOR: Porra, plenitude. Acho que com todo mundo é assim. Quando eu faço algo e digo ”Wow, isso tá foda!”, aí, sei lá, danço e canto e foda-se todo o resto.

JOPA: Me sinto tranquilo, menos ansioso do que quando desenho o que não quero (o que não quero é quase sempre o que não conheço, o que não sei desenhar). Ao mesmo tempo que é bom, por uma certa paz de espírito e tal, é ruim porque limita as possibilidades. Acho que no fim me sinto tipo o Nando Reis: ”E as coisas são mais lindas / Quando você está / Onde você está/ Hoje você está / Nas coisas tão mais lindas / Porque você está / Onde você está / Nas coisas tão mais lindas”.

PEDRO: Pra mim é quase um ritual xamãnico. Não sei se é bem assim, as coisas que eu quero desenhar, mas sim as coisas que preciso desenhar. Eu sinto como se eu tivesse embarcando numa viagem que é mais proveitosa pra mim do que pra todo o resto do mundo, mas ainda assim as pessoas podem embarcar nela e tirar proveito das pequenas coisas, defeitos e sentimentos que todos nós temos e sentimos. Nós gostamos de enxergar essa identificação nos outros. Resumindo: é bom pra caralho, “gozudo” mesmo.

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Parte do coletivo da Loki reunido. Os meninos têm um tumblr e sempre postam fotos bem legais lá

 O CHAPLIN: O que vocês andam lendo?

JOPA: Terminei um livro de quadrinhos curtos do Yuichi Yokoyama chamado New Engineering, tô lendo O Amor de Uma Boa Mulher da Alice Munro, A Potência de Existir do Michel Onfray e um livro de ensaios sobre os quadrinhos do Chris Ware. Passei um bom tempo ano passado lendo só poesia e filosofia, aí agora tô me voltando mais pra quadrinhos e teorias sobre quadrinhos.

VICTOR: To no último capítulo da Nausea, livro foda, Sartre “putão”. E também uma coletânea de contos do Machado de Assis.

PEDRO: Eu tô lendo coisa pra caralho simultaneamente, como sempre (o que me leva a terminar as coisas muito vagarosamente). Tem esse livro do Chinua Achebe, um herói da literatura nigeriana, chamado ”O Mundo se Despedaça”, que é lindo; tem o Vida, do Leminski; os poemas do Bukowski e do Rimbaud; as coisas do García Lorca… Deixa eu ver, tem também um livro de contos do Jack London; a obra completa do Hugo Pratt; Alack Sinner, um quadrinho noir argentino do Muñoz e do Sampayo. Vou começar a ler O Estrangeiro, do Camus, mas tem também os quadrinhos que eu trouxe da FIQ (Feira Internacional de Quadrinhos), como o Me & Devil, do Alcimar Frazão e o Ensaio do Vazio, uma adaptação do livro do Carlos Henrique Schroeder feita pros quadrinhos pelo Gerlach, o Franz e vários outros autores.

''Harmatã'' é uma publicação autoral de Pedro Cobiaco

”Harmatã” é uma publicação autoral do Pedro Cobiaco

O CHAPLIN: Ensaio do Vazio é muito legal! Mas o que vocês acham da adaptação de livros em prosa corrida ou de poemas pra quadrinhos? Vocês fariam esse tipo de trabalho?

JOPA: Acho completamente válido, como qualquer outro tipo de adaptação de um meio pra outro. Vale a pena se conseguir lançar um novo olhar que potencialize a obra em algum sentido. Com certeza eu faria, inclusive tenho uma vontade imensa de adaptar um conto do Raymond Carver chamado ”Penas” pra quadrinhos. É um conto onde os elementos visuais chamam muita atenção e contribuem muito pra narrativa funcionar: tem um pavão, um molde de uma arcada dentária e um bebê feio. Um dia farei, sim, mas a prioridade agora é contar minhas próprias histórias.

PEDRO: Não vejo problemas, mas dependeria muito do livro, cara. O quadrinho, a prosa e a poesia têm algumas similaridades, como por exemplo o ritmo e o tempo, que, por mais que a gente se esforce pra criar, não é como no cinema ou na música: a gente não controla o ritmo, a velocidade em que o leitor vai ver aquilo ou quanto ele vai se afundar. Eu considero isso uma vantagem, na verdade, e acho que ajudaria na hora de adaptar. Mas considero as coisas em que venho trabalhando como uma mistura entre prosa, poesia e quadrinho, então meio que já tem tudo a ver. É o que eu tenho tentado alcançar, ao menos. Alguns dos meus últimos quadrinhos eu trabalhei como se fossem uma música boa ou uma leitura de poesia: uma ferramente pra ampliar o potencial e laminar os horizontes da poesia, só que, no caso, usando imagens. Acabou indo pra outro lado, mas minha ideia inicial era essa – foi desse conceito que surgiu Harmatã, meu último quadrinho impresso. Quase uma experiência xamãnica, sei lá.

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Primeira revista da Loki. Compre aqui

O CHAPLIN: E na música? O que vocês curtem? 

JOPA: Curto muita coisa, é até difícil lembrar. No momento tô ouvindo bastante o último álbum do James Blake. Ando revisitando os dois discos da trilha do Boogie Nights, também, um dos meus preferidos. Coisas mais dançantes, anos 70, tenho curtido bastante isso. Ah, e Afrika Bambaataa!

PEDRO: Cara, se eu for falar tudo que eu gosto mesmo, a lista fica absurda! Então vou falar as coisas que tenho ouvido nos últimos tempos. Tô ouvindo muito, como sempre, o Adam Green, um música indie de NY que talvez seja meu artista favorito de todos os tempos. Tô começando a realmente gostar de jazz, então tenho ouvido muitos caras como o Lester Young, o Chet Baker… Muito o King of Blue, do Miles. Ouvindo Construção, do Chico Buarque e Loki? do Arnaldo Baptista, mais do que nunca. Tem também um caminhoneiro melancólico dos EUA, o Bonnie Prince Billy, que é genial. E blues pra caralho, sempre, principalmente blues delta, caras como o Skip James e o Mississippi John Hurt. E eu vivo caçando umas paradas desconhecidas aleatórias, esses dias até achei uma banda muito boa chamada Levy e um rapper africano chamado MC N’Djoll que é divertido pra caralho. Bastante Leonard Cohen também, meu brother das bad vibes.

VICTOR: O que eu escuto?! Porra, aí complica. Eu meio que pego coisa nova toda semana pra escutar. Não aguento ficar escutando a mesma coisa por muito tempo, mas às vezes até que rola. Enfim, desde ano passado não canso de escutar Foxygen, que é uma banda doida formada por dois amigos e que o vocalista é loucão cantando. Baixei esses dias a trilha de Her, feita pelo Arcade Fire, e um rapper que faz uma coisa com jazz chamado Kool A. Outro cara foda que não canso de ouvir é Rodrigo Amarante.

 O CHAPLIN: Como você começou a desenhar?

PEDRO: Não consigo nem lembrar direito, desde sempre. Comecei naturalmente, meu pai é desenhista e acho que só mimetizava o que ele fazia no começo. Mas, de qualquer jeito, acho que toda criança desenha.

O CHAPLIN: Ainda bem que você continuou a desenhar, né! E seu processo criativo, como é?

PEDRO:Meu processo criativo é uma porra confusa. Cada vez as coisas surgem de um jeito, e muitas vezes eu não consigo me disciplinar o suficiente pra materializar elas dentro de um prazo. É algo que eu tô trabalhando ainda, hahaha. Mas no geral funciona assim: se o projeto abre espaço pra trabalhar sem prazos, eu levo eras pra terminar, se eu tenho um prazo enchendo o saco, eu trabalho freneticamente. Mas varia, sempre varia, principalmente quando eu to super empolgado com algo.

 O CHAPLIN: O que se passava na sua cabeça quando decidiu criar a Loki? 

PEDRO: Uma tempestade de coisas tava me inspirando na época que eu bolei a revista, então não dá pra especificar tudo. As inspirações principais eram o próprio disco do Arnaldo e o trabalho de um coletivo de rap de LA, o OFWGKTA. Eu tava muito com puto com essa fraqueza minha com prazos que eu mencionei, e simplesmente decidi que ia fazer uma revista em duas semanas, ou eu jogava tudo que tivesse dela pronto fora. A ideia começou a se misturar com outra ideia, a de dar espaço (físico, porque virtual todos temos) pra todos os artistas jovens daqui, e meio que fazer com que todos nós fossemos vistos como uma coisa só em algum nível, porque a mídia e a crítica prestava muita atenção em dois ou três nomes específicos. Aí eu chamei todo mundo e joguei esse prazo, e surpreendemente quase todo mundo conseguiu cumprir ele, bem pra caralho. O Jopa me ajudou na edição, e aí surgiu a revista, em duas semanas, com todos seus defeitos e todos seus acertos. Aí ela se desenvolveu, virou coletivo, e começou a se mutar no que é hoje.

O CHAPLIN: Como é seu processo criativo?

JOPA:  Eu costumo desenhar bastante focado em coisas já planejadas. Como tenho vários projetos, quase sempre sento pra desenhar tendo em mente algum objetivo, seja uma história pra Loki., uma página pro Batalha Naval ou algum projeto mais pessoal do tipo “desenhar mais cenários”. Desenho pra me expressar, mas visando coisas específicas.

O CHAPLIN: E seu trabalho na Loki, como foi no início?

JOPA: Ajudei a gerar o pdf. So comecei a atuar como editor mesmo a partir de publicações posteriores a Loki. 1, como a Lusco-fusco.

 O CHAPLIN: Você é o único do coletivo que mora no Rio Grande do Norte. Morar em Natal e fazer quadrinho pode ser uma das coisas mais difíceis do mundo. Quais são as maiores dificuldades pra você?

VICTOR: Assim, até que não. Seria há um tempo atrás, se não tivesse a internet e tudo mais. Hoje em dia tá rolando um boom tão fudido de quadrinhos indies na interwebs que eu ainda tô perdido. Na real, quando eu era guri e fazia uns rabiscos bem toscos e tiras no paint eu nem pensava em fazer algo em quadrinhos nem nada. Eu tenho que culpar um antigo professor meu, que tinha um locadora/revistaria, o Wagner Michael, e o Wendell Cavalcanti, que é um quadrinista daqui e faz umas coisas pra fora. Eles me deram meio que a fagulha pra querer desenhar e querer fazer histórias em quadrinhos. Além de começar a gostar mais de cinema e a me fazer pensar mais sobre as coisas.

O CHAPLIN: Além da Loki., fale um pouco sobre seus projetos pessoais. 

VICTOR: Tem dois projetos já saindo do forno: Reflexo de Nada, que é um projeto meu com o Gustavo Gomes, em que eu meio que ilustrei uma poesia longa dele e vai sair na internet não sei quando, e o segundo zine da trilogia Miragem, o Redemoinho, que sai em fevereiro. É um zine com ilustras e contos e poesias. Dá pra ver o primeiro aqui e tem também minha página no Facebook.

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Sobre o Autor

Regina Azevedo

Poeta, estudante de Multimídia, formada no curso FIC de Roteiro e Narrativa Cinematográfica pelo IFRN, apaixonada por História da Arte e fotografia.

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