Conheça Victor H., autor do zine Pé do Ouvido

Como todo mundo já sabe, a Editora Tribo vai lançar nessa sexta-feira o seu nono zine, o oitavo de 2014. Chama-se “Pé do Ouvido” e ficou sob a batuta do jovem artista Victor Hugo de Azevedo, ou, como gosta de ser identificado, apenas Victor H. Victor tem 19 anos recém completados, nos quais acumula talento e sensibilidade de causar admiração a muito veterano. É por esse motivo que a própria editora Tribo divulgou em sua página oficial – e ninguém duvida – que esse “é um dos fanzines mais lindos do catálogo”. Não acredita? Nós vamos dar vários motivos para você não perder o lançamento que vai acontecer na Comic Coffee Shop, a partir das 19h, e desembolsar R$ 8 no zine sem piedade.

Foto: Regina Azevedo

Foto: Regina Azevedo

Victor H. é um dos melhores desenhistas que conheço em Natal. Não só por sua técnica, mas pela pouca obviedade de seus desenhos. É aquele tipo de ilustração que foge do explícito e nos permite viajar em várias possibilidades. Abaixo, três artes selecionadas pelo próprio autor de “Pé do Ouvido” para a gente.

Pereba

“Pereba”

Sol

“Sol”

yo

A última ilustração, sem título, foi objeto de uma discussão com Victor. Perguntei-lhe se tratava-se de um autorretrato. Após contestar que seu nariz não era tão grande quanto o da imagem, ele respondeu que “todo mundo fala que o que eu desenho é meio que um autorretrato. Eu não acho. Mas se acham não posso fazer nada”. A resposta me fez perceber um novo aspecto no perfil de Victor: uma espécie de desapego benigno à obra, tão raro nos criadores. 

Mas nem só de traços e cores vive a arte de Victor. “Pé do Ouvido” também conta com escritos do autor – sejam eles independentes ou somados a desenhos, numa espécie de poemas ilustrados. Abaixo, alguns escritos – também selecionados pelo autor.

Rouquidão

Quero arrombar
a represa
que contem
esse oceano perpetuo
e encher
– inundar,
transbordar –
a alma caótica
até a boca.

sem olhar para trás
com medo de cães pastosos
(ou mascarar
o olhar
míope do
ciclope)
indo avante
como o marujo
de lábios salinos e ermos,
que segue
feito uma bala:
errante

afiando a rouquidão
com um copo de rum
que reflete
a miragem do mirante
em ver o infinito
a olho nu
e cru

e indo contra
a correnteza
de transeuntes em transe
cravando a tez
nas lágrimas
do sol

 

quando você vai voltar
pra eu
te afogar
de beijos e
te afagar
no banho
(de sol).

 

Amenizar

dia ameno
sem estrondo algum
um dia a
menos

Já deu para sentir o gostinho afetuoso de “Pé do Ouvido”. Mas só para aguçar ainda mais a curiosidade, abaixo segue a minha página favorita, apenas uma das vinte preciosidades que compõem o zine.

peduvido

 

Abaixo, uma curta conversa de pé de ouvido com Victor H.

tumblr_n8s84u0fEg1qfu2z5o2_500O CHAPLIN: Qual o lugar que a arte ocupa na sua vida?

VICTOR: A arte tá na minha rotina. Fui perceber isso só há alguns anos atras. Eu já fazia arte, já desenhava já escrevia e tudo mais. Mas só depois de um momento muito conturbado e esquisito da minha vida, foi que eu percebi. Foi um período de muita reflexão sobre eu mesmo e o meio que eu vivo. Acho que foi a partir daí que eu comecei a fazer poesia, a pensar poesia. Eu ando na rua, indo pra faculdade ou só andando com os amigos, e é inevitável, pra mim, perceber tudo a minha volta: as pessoas, os lugares, os trejeitos e tudo mais. A arte pra mim é uma reflexão sobre o espaço, sobre o tempo, é uma coisa, sei la, meio filosófica (risos).

O CHAPLIN: Aos 19 anos, muitas coisas devem passar pela cabeça. Quais os seus planos? Eles existem?

VICTOR: Meus planos… é complicado dizer. Meu foco atual era fazer o “Pé do Ouvido”, que finalmente foi concluído. Tenho esse projeto de uma trilogia de zines online que só falta o último e derradeiro para acabar com tudo, e talvez no fim eu tente fazer um compilado dessa trilogia em um volume físico e colorido. Tenho um projeto, muito mal rascunhado ainda, de fazer um livro com algumas poesias, não sei pra quando, chamado Desmantelo. Tem muita coisa rascunhada na minha cabeça e mal formatada no real, eu geralmente deixo o tempo me levar e ver o que dá.

O CHAPLIN: Você seguiu uma linha particular para “Pé do Ouvido” ou ele é um apanhado geral da sua produção?

VICTOR: Na verdade, não. Pé do ouvido tem quadrinhos (e algumas poesias ) que eu fiz no ano passado, outros que eu fiz anteontem quase, hahahahaha. Mas é engraçado, porque depois de ver o resultado final eu meio que vi um tipo de sequência nas histórias. Quem for ler, talvez saque isso melhor que eu.

Capa de "Pé do ouvido"

Capa de “Pé do ouvido”

O CHAPLIN: Por que o nome “Pé do Ouvido”?

VICTOR: Na real, o nome ia ser Garranchos, tanto que o título de uma poesia de abertura é esse. Só que depois eu fui me lembrar que o Graciliano Ramos tinha um livro com esse nome. Aí eu larguei essa ideia. Então eu fui revisar vários cadernos antigos, cheios de ideias de nomes, e achei dois: Pé do ouvido e Mirante. Mirante porque certa vez fui num sítio arqueológico em cima de uma serra no interior do estado, e era um mirante. Achei aquele nome lindo, e o significado também (algo como “ponto de vista daonde se vê tudo”) só que o zine não é bem assim. Pé do ouvido tinha mais a ver, pé do ouvido é algo que você conta assim, meio que no íntimo. (na real, eu fiz uma votação com o pessoal da loki e uns amigos e todos acharam os nomes bonitos mas acharam Pé do ouvido mais adequado, e só depois de revisar tudo no zine eu me toquei que Pé do ouvido tem um semblante, digamos assim, um pouco mais introspectivo hahaha)

O CHAPLIN: Você tem inspirações? Quais?

VICTOR: Putz, sim! Muitas! É complicado até de listar, mas vou tentar. No meio da prosa, eu gosto muito do Daniel Galera, do Lourenço Mutarelli (e da obra em quadrinhos dele também), Chuck Pallahniuk, Vonnegut, David Foster Wallace… Em poesia, gosto do Drummond, Waly Salomao, Garcia Lorca, Alice Sant’anna, comecei a tentar ler um pouco mais do E. E. Cummings e tá se tornando uma das minhas maiores influências. Tem muito em poesia mas não lembro de todos agora. Em ilustração e quadrinhos, eu gosto, imensamente, de todo mundo da loki, especialmente do Pedro Cobiaco e da Julia Balthazar. Sachin Teng, Hafaell e uma infinidade de gente.

O CHAPLIN: Qual a vantagem e a desvantagem de se ter 19 anos e ser considerado um artista?

VICTOR: É complicado responder isso. Algumas vantagens se tornam desvantagens às vezes, como trabalhar sozinho, sem ajuda de alguém, mas sendo dono do próprio trabalho. Mas basicamente a melhor vantagem/desvantagem é ter que trabalhar duro se você (no caso eu, ou qualquer um que faça qualquer meio de arte) quiser viver disso mesmo.

O CHAPLIN:  Que tipo de coisa só deve ser dita no “pé do ouvido”?

VICTOR: Um amor sincero, uma piada suja, um comentário no silêncio, um segredo doído…

O CHAPLIN: E quando você não é desenhista/poeta, você é…?

VICTOR: Não dá. (risos) É impossível não pensar como um desenhista ou um poeta ou um escritor de prosa. É como eu falei no começo, isso ocupa minha visão de mundo. Não dá pra desligar isso de mim. Por onde eu vá, eu vou pensar em alguma poesia vendo algo como, sei la, uma mulher esquelética quase gemendo de dor num semáforo pedindo esmola, ou ver alguém com um rosto caricato e sentir um troço na alma por não poder desenhar aquela pessoa naquele momento. Mesmo quando eu tô fazendo outra coisa, tipo numa aula de metodologia ou conversando com alguém, eu sempre pego um fiapo daquele momento pra fazer algo de arte.

SERVIÇO

Lançamento do zine “Pé do Ouvido”, de Victor H.

Sexta-feira, 29, às 19h.
Comic Coffee Shop (Av. Miguel Castro, ao lado da Drogaria Globo)
Entrada gratuita
Valor do zine: R$ 8
Editora Tribo, 20 páginas

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Pin on PinterestEmail this to someonePrint this page

Comentários

comments

Sobre o Autor

Andressa Vieira

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema e mestranda em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN). É diretora deste site.

Deixe um comentário

Seu endereço de email não será publicado.