A música é universal, multifacetada e uma das muitas formas de expressão da cultura de um povo. Não diferente, na cultura brasileira a música tem um lugar muito especial, sendo ela uma das expoentes quando conversamos sobre o nosso próprio país. A fanpage Brasileiríssimos, que nasceu em 2012 com o objetivo de mostrar para o brasileiro a sua própria cultura, levanta suas asas e voa mais alto a cada dia. Hoje, a página conta com mais de 4 milhões de curtidas, além da própria rádio online. O fato é que a Brasileiríssimos é a cara deste país, formada por jovens tropicais, de diversos sotaques e que desejam uma maior representação e apoio à música, ao cinema, à literatura e demais ações artísticas e sociais que os brasileiros produzem aqui e ao redor do mundo.

E pra falar de música, não podemos deixar de lado aquelas bandas, comumente chamadas de independentes, que começam sua jornada com o desafio de se fazerem conhecidas através só de suas músicas, sem o auxílio de uma grande gravadora e seu bombardeio publicitário. Ao maior estilo underground, na última sexta (15), o pessoal da Brasileiríssimos, com apoio do Centro Cultural DoSol e do Ateliê Bar e Petiscaria, realizou a 1° edição da Mostra Autoral Brasileiríssimos – Edição Natal, espaço exclusivo pra mostrar essa moçada que confia no seu trabalho e luta diariamente pra viver de música. Com nove atrações, a Mostra contou com os talentos e os sotaques de bandas de três estados (RN, PE e CE).

Thayze Lima, 23, é uma das sócias da Brasileiríssimos, juntamente com Josué Veloso e Laryssa Thrayce. Ambos coordenam a produção de conteúdo do site e das redes sociais. Questionada sobre o surgimento da ideia de promover mostras musicais e posteriormente um festival maior intitulado Circuito Brasileiríssimos, Thayze me responde que eles sentiram a necessidade de promover esse evento tomando como referência a situação das bandas independentes que existem em Recife, que apesar de serem muito boas, só eram aceitas em poucos espaços. Sentindo também essa carência de reconhecimento aqui em Natal e em Fortaleza, a equipe resolveu puxar as mangas e por em prática a ideia de juntar essa galera do Nordeste aqui em Natal e a do Sudeste em São Paulo,  e dispor ao trabalho deles um espaço adequado e um público a espera de ótimos shows. Thayze ainda falou que a Mostra é um pouquinho do que vai ser o Circuito, um evento bem maior, mesclando artistas de renome nacional a esse mesmo pessoal que está começando sua caminhada, justamente para que esses grandes artistas posam vir a ajudar essas pequenas bandas a se estabilizarem. Sem datas definidas ainda, só nos resta esperar para saber mais novidades do Circuito.

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Hotel Dolores [Foto: Yuri Padilha]

Abrindo a noite, a banda Hotel Dolores (RN) exibiu seu “rock-pop” e estilo ainda em amadurecimento. Formada recentemente, a banda conta com velhos conhecidos do cenário independente potiguar, como Bruno Alexandre e Leonardo Palhano, ambos integrantes do projeto Trinca. Ainda não contando com seu primeiro disco – previsto para o meio do ano, segundo TMDQA, a galera fez um som de responsa e mostrou que no RN sempre há espaço para mais um banda que queira mostrar seu trabalho. O segundo a subir no palco e pela primeira vez no estado foi Igor de Carvalho (PE) e eu confesso que sou fã há um tempão do barbudo, pois o cantor consegue construir uma atmosfera intimista e por meio de belos arranjos de guitarras e uma letra bastante reflexiva. Igor tem um disco lançado no ano passado e que foi uma das minhas gratas surpresas, pois A TV, a Lâmpada e o Opaxorô  (2014) é um disco complexo, com referências fortes do samba, tropicalismo e candomblé. Tem um quê de Gilberto Gil? Tem sim, muito.

Bandavoou (PE) e Talma&Gadelha (RN) foram as duas próximas bandas a se apresentarem e a mostrarem para quê vieram.  A primeira, devo ressaltar, merece atenção na bela voz de Carlos Filho, que junto de PC Silva cadenciam suas músicas singelas e delicadas. Desde 2011 a banda vem levando sua poesia pelas ruas de Recife. Já a segunda, liderada por Simona Talma e Luiz Gadelha, não se faz delicado em nenhum momento, pois a força dessa banda está na violência dos sentimentos que cantam, dos amores que machucam o peito e da superação do mesmo, temas recorrentes nas canções que fazem deles tão queridos e tão próximos dos jovens da cidade de Natal. Com três discos lançados – e o último bem recente, Mira (2015) -, os veteranos souberam levar o público a sair do chão, a dançar juntinho, a admitir que “todo coração é burro e o meu é mais”. Então, aceita, que dói menos.

Em seguida foi a vez do Capitão Eu e os Piratas Vingativos (CE) subirem, pegarem seus instrumentos e mostrarem o que sabem fazer. Bem, confesso que não fiquei impressionado, pois o fato de conhecer pouco a banda me fez criar uma expectativa que não foi suprida no show. Não sei se foi o momento ou qualquer outra coisa, mas é fato que a banda tem músicas muito boas, tal como “1989”. Logo após foi a vez do Plutão Já foi Planeta (RN), que apesar de relativamente novo, a banda já possui um trabalho conhecido e bem criticado. Plutão é outra banda queridinha de Natal, então aí você já viu, o pessoal começou a juntar e formar aquela vibe. Talvez seja a voz de Natália Noronha, talvez seja a simpatia do Gustavo Arruda, ou ainda o disco Daqui Pra Lá (2014) em seu conteúdo, mas a questão em pauta aqui é que o Plutão deu um show.

Por motivos que não vêm ao caso neste texto, não pude presenciar os shows de Magic Bus (PE), Forasteiro Só (RN) e Clara e a Noite (RN). Assim que amanheceu, fiz questão de entrar em contato com um amigo que ficou até o fim e perguntei como foram essas três últimas apresentação. Nas palavras dele: “Magic e Clara foram maravilhosos! Magic botou pra foder, foi irado demais. E falar o que de Clara? A mulher já tem meu coração com aquela voz. Sabe quando você sente que uma cantora tem presença e capacidade pra despertar diversas sensações em você só com a música dela? Pois então, é isso que eu penso da Clara”. O pessoal do Forasteiro não pode ser deixado de lado, pois eu gosto do trabalho deles e respeito muito o disco que eles lançaram ano passado, Chuva (2014).

Devo deixar também minha crítica à pouca participação do público, que não abraçou o evento como gostaríamos de ter visto, o que me levou a pensar em alguns pontos, como o preço dos ingressos (de 15 a 25 reais, entre o 1° lote e a venda na entrada do evento respectivamente) ou mesmo a localização – pois convenhamos, a população de Natal tem um receio enraizado de não participar de eventos desenvolvidos nos bairros do centro da cidade. Infelizmente essa foi a realidade, mas tenho certeza de que as pessoas que estavam ali presentes devem ter saído com uma boa impressão da mistura de talentos e da atmosfera de boa música que essa mostra deixou. Que venham mais eventos como esse, que a equipe Brasileiríssimos possa voltar sempre, e que o Brasil e o Rio Grande do Norte possam respeitar mais toda arte que resiste e luta pra se fazer viva.

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Sobre o Autor

Gustavo Nogueira

Estudante de jornalismo, com um tombo por cinema e literatura. Curte um festival de música assim como um bom gole de café. Enquanto não acha seu meu rumo, continua achando que é a pedra no meio do caminho.

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