Contam as lendas medievais que os encantadores são pessoas com o talento especial de controlar espécies de animais, fazendo-lhes agir da forma como lhes convir, respeitando a natureza e particularidade de cada espécie, mas extraindo-lhes os melhores e mais autênticos movimentos. Assim, um encantador de serpentes jamais poderá fazê-la voar, mas a seduz para que use seus atributos a seu favor.

O termo “encantador” tem uma razão para não ser simplesmente substituído por “manipulador”, por exemplo. Em vez de ser forçado a agir de determinada forma, o ser encanta-se por seu encantador, geralmente por meio de um atributo artístico, como a música, e por isso o satisfaz. Não se torna errôneo, então, referir-me à artista plástica LuAna Cavalcante, idealizadora do projeto #OSERdeLuAna, como uma “encantadora”.

Eu desbravava o webmundo do Instagram quando, há uns dias, uma conhecida postou uma foto que chamou minha atenção a ponto de destinar uma reação maior que o clássico coração que faz com que o outro saiba que você “curtiu” sua publicação. Atraída pelas cores e pela naturalidade da composição, procurei na legenda a autora da foto e passei a seguir o projeto acima citado na mídia social.

{ j o a n i s a } • #oSERdeLuAna 🎨📸 @luanavanguard

A photo posted by oSERdeLuAna (@oserdeluana) on

Me deparei com a sensibilidade de uma artista que não se limitava, e nem fazia questão de fazê-lo. Aparentemente, o trabalho de LuAna, com foco artístico do expressionismo, consistia em pintar mulheres de forma a desvendar e expor nelas mesmas a sua essência. Essa característica só é perceptível se você tem alguma afinidade com as modelos do projeto. Perceberá, por exemplo, a referência na pintura da escritora e atriz Alice Carvalho com o seu arquétipo de “Princesa Empoderada”, que também inspirou uma crônica da autora. Notará ainda a “luminosidade tropical” da cantora Dani Cruz, sempre presente em suas performances e perfeitamente representada por LuAna.

#oSERdeLuAna { d a n i } @cruz_daniela 🎨📸 @luanavanguard

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{ a l i c e } #oserdeluana @luanavanguard

A photo posted by oSERdeLuAna (@oserdeluana) on

 Trata-se de um processo demorado, complexo e muito pouco mecânico. LuAna atua não apenas como artista plástica, quando transforma corpos em telas, e fotógrafa, quando prepara um estúdio e analisa ângulos e iluminações. Ela também é responsável por cabelo e maquiagem, pela concepção e produção do ensaio. Não se exime também da função de psicóloga por tabela, uma vez que para (re)conhecer os anseios de suas modelos, ela precisa extrair delas o seu SER não explícito.

O ponto de virada da narrativa dá-se quando minha curiosidade ultrapassou os limites da mera observação voyeurista e tornou-se aquela pulga inquietante presente em qualquer jornalista que deseja desvelar uma história. Entrei em contato com a artista pelo Instagram e não demorei para ter atenção e uma resposta. Para evitar que caiamos no pecado da descrição excessiva e desnecessária, transcrevo aqui os quatro trechos iniciais de nossa conversa, que deram início ao domingo de Natal mais transformador do qual me recordo.

“Oi Luana, tudo bem? 🙂 Falo do blog @O_Chaplin. Gostaríamos de fazer uma matéria sobre seu projeto. Poderia nos passar um email para enviarmos algumas perguntas? Se preferir, posso enviar por Facebook também. Obrigada!

Olá, Andressa! Tudo bem? Meu e-mail é__ – mas, pode me passar pelo facebook também. Beijo.

Ótimo! Te passarei algumas perguntas por lá, ok? Obrigada pela disponibilidade 😉 E parabéns pelo projeto, está lindo.

Eita! Que linda! <3 Muito grata, Andressa. A matéria também poderia ser feita enquanto pinto você, já pensou nisso?! <3″

Desnecessário dizer que não hesitei em topar. Jornalistas entenderão que, tão importante quanto o ouvir, é também o viver. E não negamos uma boa experiência, principalmente quando ela chega de bandeja por inbox do Instagram. Sabia que o famigerado distanciamento jornalístico cairia por terra ao ocupar uma posição participante naquela história, mas como sempre fui mais adepta às narrativas em primeira pessoa, marcamos um horário e poucas horas depois eu chegava ao estúdio de LuAna. Um ensaio havia acabado de ser finalizado e ela apressou-se em se desculpar pela “bagunça” do cômodo. “Normalmente, eu recebo as meninas de forma diferente”. Me acomodei no sofá e iniciei as várias perguntas. Ao contrário do que geralmente faço, não anotei ou gravei respostas. A mente se encarregaria de guardar os trechos relevantes de nosso encontro.

Luana Cavalcante é filha de artista e integrante de uma família de publicitários. Não fugiu à regra e formou-se ela também em publicidade, área na qual atua até hoje. Como segunda formação, o curso de Design e Multimídia, concluído em Coimbra (Portugal), veio a agregar seus múltiplos talentos e sua função de diretora de arte. Simpatizante de cores e pincéis desde quando consegue recordar, apenas recentemente, aos 34 anos, apresentou publicamente sua primeira obra de arte, “Sentidos”, que esteve em exposição na Pinacoteca do Estado, no Salão Dorian Gray de Arte Potiguar. “Sou tímida, nunca quis expor. Mas meu pai me convenceu e eu topei”.

LuAna ao lado de “Sentidos”, obra exposta na Pinacoteca do Estado

Em terras em que o sol some cedo, minhas perguntas tiveram que esperar e LuAna começou a sua própria entrevista, etapa inicial e primordial de seu processo criativo. Enquanto me escutava, rabiscava e frequentemente se justificava, gentilmente, por estar olhando para o papel, “eu estou prestando atenção, viu? Pode falar”. A tantas, fez um gesto súbito e acabou derrubando uma garrafa com pinceis e água próximo ao meu calçado, que já não estava mais nos meus pés. Enquanto eu me preocupava com seu material de trabalho, que poderia ter-se danificado, ela se desculpava repetidamente pelo contratempo com o meu sapato. “Eu sou míope, enxergo mal. Mas também não faço questão de usar óculos nas sessões. Tenho a impressão de que é melhor não ter a visão nítida, pois assim eu consigo enxergar melhor com o que importa”, justificou.

Em meio às conversas, foi impossível manter um foco direcionado, seja meu ou dela. Havia fome de descoberta dos dois lados. A minha, jornalística. A dela, artística. Uma pergunta respondia a outra e as respostas se emendavam em uma conversa fluida. Questionei sobre sua arte multifacetada. O que era a LuAna, afinal? Fotógrafa, artista plástica, produtora, designer? “Tudo. E vem cá, deixa eu te mostrar uma coisa”. E levou-me ao quarto, onde havia também uma máquina de costurar, atestando mais uma competência. “Eu também cozinho. E bem, viu? Semana passada mesmo, após o décimo ensaio, eu fiz um jantar aqui pras meninas”, complementou. Pelo que me recordo, o jantar envolvia macarrão. Como boa amante de pasta, invejei.

LuAna em seu universo criativo

Seu objetivo inicial é chegar a 35 ensaios. Um número selecionado tendo como base o misticismo: completará 35 anos muito em breve e supôs que este seria o número ideal de mulheres a pintar. Eu fui a décima terceira. Faltam ainda 22. LuAna pretende expor o trabalho final e lançar em um livro junto com uma série de escritos, impressões sobre o projeto e poemas, que ela acumula. “A arte sempre se inspirou no corpo humano. Eu faço o processo inverso, produzo a arte e uso o corpo humano como uma tela. Você, pra mim, é uma tela”. Também é seu objetivo, com o projeto, estimular a autoaceitação. “Eu gosto de cuidar das meninas. É uma forma de cuidar de mim mesma também. Tenho esse objetivo, de cuidar das mulheres e fazê-las sentir melhores consigo mesmas”, explica.

Dado o caráter de descoberta e autoaceitação do projeto, LuAna ganhou o carinhoso apelido de “mãe” pelas garotas que já participaram do projeto. “Algumas dizem que renasceram. E eu realmente adoro mimar as meninas! Deve ser por isso que elas me chamam de mãe”, riu. Orgulha-se também do comentário do escritor Daniel Minchoni, que indagou, ao encontrá-la em um evento, se ela era aquela LuAna que estava capturando os SERes. Quanto a mim, não sei se “capturar” é a palavra mais adequada, visto que se trata muito mais de um percurso de libertação. No entanto, a captura também se faz presente quando o SER de outrém é eternizado pela fotografia. Sou capaz de apostar que mesmo Walter Benjamim reconheceria a áurea que paira em #OSERdeLuAna.

Quando saí do pequeno estúdio e da enorme companhia de LuAna, passei a SER alguém diferente partindo de uma experiência única de autoconhecimento e de reconhecimento do outro, sem solenidades ou conveniências sociais. Arrisco dizer que, tal como o rio que torna impossível à mesma pessoa adentrar duas vezes, nenhuma mulher atravessa o portão de LuAna sentindo-se a mesma. Se há uma forma concreta de empoderar mulheres através da arte, LuAna descobriu a fórmula ao nos permitir ser de suas lentes e aquarelas.


P.S.: Optei por não dar maiores detalhes sobre o processo em si para não ser invasiva com a artista. Há certas informações que em nada agregam à repercussão, mas que se tornam valorosas quando preservadas até a execução.

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Sobre o Autor

Andressa Vieira

Jornalista, cinéfila incurável, cineclubista e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Possui cursos na área de cinema e trabalhos em jornalismo cultural. Especialista em Cinema. É diretora deste site.

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