Tenho o bom hábito (muito embora meu saldo bancário discorde) de me deixar ir às livrarias e permitir que um livro me escolha. A experiência consiste em manter-se aberto à sensação de que aquela obra pertence à sua estante, mesmo sem ainda estar lá. Após o contato inicial, folheio o livro, leio a sinopse na contracapa, uma ou duas páginas e decido o que já parecia decidido desde o primeiro momento. Isso, exatamente desta forma romanceada, foi o que aconteceu entre mim e “Contos Peculiares”, do escritor americano Ransom Riggs.

Havia assistido “O Lar das Crianças Peculiares” há pouco tempo seduzida pela direção de Tim Burton, diretor que acompanho fielmente desde as inúmeras sessões da tarde de “Edward Mãos de Tesoura”. Assim, quando vi a caprichada capa dura e o lindíssimo trabalho estético da edição de Contos Peculiares da Editora Intrínseca, não pensei muito antes de levar a obra para casa e imediatamente começar a devorá-la.

Minha relação com fantasia é um tanto peculiar, para me utilizar da palavra-chave da obra de Riggs. Gosto do que é fantástico, diferente e do que não subestima a capacidade interpretativa dos leitores. Contos juvenis e óbvios não chamam minha atenção, mas contos que resignificam o sentido de monstros épicos e mocinhos inocentes, estes sim me cativam. É exatamente isso que Ransom Riggs entrega em Contos Peculiares.

Narrado por um dos personagens criados pelo autor, o peculiar Millard Nullings, e dedicado à professora fictícia Alma LeFay Peregrine (que no cinema foi interpretada pela exótica Eva Green), “Contos Peculiares” conta de forma clássica, simples e objetiva histórias fantásticas sobre aldeões que voluntariamente escolhem vender partes do corpo a canibais; uma linda princesa que precisa conviver com um defeito peculiar em sua língua; um homem que se transforma em uma ilha; uma garota que domava pesadelos alheios como se fossem bichinhos de estimação; a história da primeira ymbryne – uma mulher que tem o dom de controlar fendas temporais e se metamorfosear em um pássaro; entre outras lendas que unem o universo mágico dos contos de fadas com dons considerados estranhos.

Aqui não existe uma fada madrinha, uma princesa encantada ou um príncipe guerreiro. Existem sim contos bem escritos de fantasias um pouco mais peculiares e cuja aceitação nem sempre é fácil no meio social. Durante a leitura, lembrei-me do filme O Conto dos Contos (2015), que assim como Contos Peculiares, transporta o imaginário e o formato dos contos de fadas para uma realidade que oferece um pouco mais que o sonho do final feliz, mas a possibilidade de avaliar comportamentos e relacionar os dons pouco usuais dos personagens às características não menos peculiares que marginalizamos na vida real.

Ransom Riggs é um forte candidato a ocupar a cadeira contemporânea deixada pelos irmãos Grimm e companhia. Que mais contos peculiares estejam a caminho para que nossas crianças e jovens tenham a possibilidade de ler menos sobre princesas perfeitas e mais sobre as incríveis criaturas que aprendem a aceitar e conviver com dons imperfeitos.

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Sobre o Autor

Andressa Vieira

Jornalista, cinéfila incurável, cineclubista e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Possui cursos na área de cinema e trabalhos em jornalismo cultural. Especialista em Cinema. É diretora deste site.

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