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É difícil falar de Kong: A Ilha da Caveira (2017) sem falar de todo o mito que permeia o personagem, um dos maiores ícones de Hollywood. Mas, ao mesmo tempo, compará-los parece injusto. Lá estão os nativos, a expedição, a ilha, as brigas entre monstros épicos, o grande primata, a jovem obrigatoriamente loira… e, ao mesmo tempo, esses elementos são abordados de forma completamente diferente, construindo uma nova versão do mito – o que no mínimo distingue o novo filme das versões anteriores que mantiveram a mesma estrutura do filme original.

Nesse sentido, Kong: A Ilha da Caveira é um completo sucesso, mas que deixa no ar uma sensação de decepção por um enredo fraco, desperdiçando os momentos em que poderia se tornar um grande filme. A história se passa nos anos 1970, no contexto das retiradas das tropas americanas do Vietnã. Dois desacreditados cientistas do Projeto Monarca – o mesmo projeto fictício responsável pela investigação do Godzilla em sua versão americana lançada em 2014 – partem com uma escolta militar em uma expedição a uma misteriosa ilha, sob o pretexto de uma investigação geológica. No melhor estilo little did they know, o grupo é surpreendido pelo gigantesco primata, nem um pouco feliz com as cargas de explosivos utilizadas sobre o seu pequeno pedaço de paraíso – para o delírio dos cientistas e terror dos militares, que acionam imediatamente o modo de combate.

A mais recente aparição de Kong no cinema é, em muitos sentidos, um negativo do filme original de 1933. O tom escuro e a penumbra de King Kong (1933) dão lugar a uma belíssima fotografia em tons quentes, em que o vermelho e o amarelo saltam aos olhos a todo instantes. A violência e o horror dão lugar a um ar de aventura, com pinceladas de humor. Mesmo a obsessão do monstro pela loira obrigatória, grande tema do filme clássico, aqui é abandonada quase que completamente. Uma excelente escolha.

A Ilha da Caveira, refúgio de Kong e que agora dá nome ao filme, mostra-se um lugar mágico, completo com mega-fauna pacífica, flora verdejante e uma aurora austral iluminando o céu durante a noite. Nesse lugar, figuras gigantescas vivem em harmonia graças à vigilância de Kong, que de um monstro selvagem (e provável agressor sexual) King Kong (1933) passa a ser um guardião do equilíbrio ecológico dentro da ilha, resignado em sua solidão. Ainda com relação à representação da Ilha da Caveira na versão original, não há nada místico ou belo nela. Trata-se de um lugar esquecido pelo tempo, absolutamente brutal e violento, e extremamente inóspito aos humanos nativos que sobrevivem espremidos em uma curta faixa de terra entre o mar e uma imensa muralha, fazendo sacrifícios de moças virgens para apaziguar Kong, o monstro rei. Definitivamente não era um bom lugar para passar as férias.

Outra grande diferença é que Kong volta nessa nova versão *muito* maior. O novo Kong retorna cinco vezes maior que seu tamanho original e ele passeia pela tela mais parecido com um dos colossos do brilhante game Shadow of the Colossus: belíssimo, invulnerável e, em uma primeira impressão, impossível de matar. Claro, esse upgrade no tamanho (com potencial para crescer ainda mais) leva em consideração a futura luta programada com Godzilla. A luta entre os dois já está agendada pelo estúdio para chegar ao cinema em 2020 (¬_¬). Na minha modesta opinião, contudo, Kong ainda vai precisar de algumas bilhões de horas na academia antes do confronto: sua versão atual não teria nenhuma chance contra o gigante japonês.

Kong: mais alguns shakes de proteína para o monstro sair da jaula e enfrentar Godzilla.

Se a história até o momento foi pouco mencionada aqui, é porque essa é a grande falha do filme. Um enredo padrão, sem grande imaginação, com personagens pouco memoráveis que ocupam a tela entre os momentos brilhantes de aparição dos monstros. Claro, Samuel L. Jackson tem momentos de destaque como o Tenente Packard, especialmente no momento silencioso em que reconhece a destruição de Kong como uma luta que realmente vale a pena. Tom Hiddleston é brilhante como sempre no papel de James Conrad (nada sutil referência ao autor de Coração das Trevas, livro base de Apocalypse Now), um explorador mercenário. E Brie Larson nem de perto mostra seu potencial, com uma atuação reduzida a caras e bocas frente as maravilhas imaginárias que foram adicionadas na pós-produção.

Samuel L. Jackson  como o Tenente Packard: melhor estilo bad mother fucker, especialidade do ator.

Mas, sinceramente, nada disso importa muito. A estrela da festa é realmente Kong. Em termos de efeitos, o monstro é brilhante e as atuações através de captura de movimento de Toby Kebbel e Terry  Notary são geniais. Ao contrário de Godzilla (2014), o monstro não demora a dar as caras e logo na sequência inicial nos deparamos com toda a sua grandiosidade, passando o restante do filme roubando todas as cenas em que aparece. Visto em uma gigantesca tela IMAX, Kong realmente parece fazer jus ao adjetivo de Oitava Maravilha do mundo.

Tudo isso faz de Kong- A Ilha da Caveira um filme muito divertido e visualmente muito interessante, mas que sofre com um roteiro pobre, personagens pouco desenvolvidos e diálogos toscos. O diretor Jordan Vogt-Roberts mantém o mesmo olho para o visual e ritmo da história aplicado em seu excelente e pouquíssimo visto Os Reis do Verão (2013, disponível no Netflix mais perto de você), mas um monstro dessa magnitude merecia uma história à sua altura (hehe). Mais do que o aspecto da interferência humana no equilíbrio natural, o filme seria um prato cheio para levar à reflexões e provocações maiores acerca do nosso terror cósmico ao nos depararmos com entidades que desafiam todos os nossos conceitos – um tema lovecraftiano que é completamente desperdiçado aqui, assim como foi em Godzilla.

Fique após os créditos para uma mais uma cena, que  deixa ainda mais óbvia não só a existência dos dois monstros no mesmo universo, mas também a ambição do estúdio em mostrar mais conflitos entre colossos gigantescos com consequências nefastas para nós, pobres seres-humaninhos minúsculos. Há de se esperar, contudo, que novas aventuras tomem tanto cuidado com o roteiro quanto com os belíssimos efeitos visuais.

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Sobre o Autor

Diego Paes

Formado em Relações Internacionais, Mestre e talvez Doutor (me dê alguns meses) em Administração, mas que tem certeza de que está na área errada. Pode ser encontrado com facilidade em seu habitat natural: salas de cinema. Já viu três filmes no cinema no mesmo dia mais de uma vez e tem todas as fichas do IMDb na cabeça. Ainda está na metade da lista dos Kurosawa e vai tentar te convencer que Kieslowski é o melhor diretor de todos os tempos.

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