Florbela Espanca é minha poetisa favorita desde que descobri, quando estudante secundarista, a sua vocação inerente para a dor. Um professor de literatura me contara um mito sobre uma indevida paixão platônica da poeta por seu irmão, um sentimento impossível de se concretizar e por isso retratado incansavelmente em seus poemas, sobretudo n’O Livro d’Ele e no Livro de Sóror Saudade. O mesmo professor acabou por me dar o meu primeiro exemplar de Florbela, um pocket book que compilava alguns de seus sonetos em um feira literária que acontecia no interior onde cursei boa parte de meu ensino Fundamental e Médio.

De cara, gostei da intensidade de Florbela e de seu apego estético – que disciplina é escrever sonetos, quadras e versos métricos quando o coração pulsa para jorrar sentimento! No entanto, apenas recentemente, quando adquiri a Antologia Poética da escritora, editada pela Martin Claret, pude conhecê-la em sua plenitude: a Florbela intensa e apaixonada, que flerta com os extremos vida e morte; a autora lírica que constantemente indaga a sua natureza; mas também a Florbela livre; seus versos simples com ares de ingenuidade na coletânea “As Quadras d’Ele”; sua fase nostálgica e nacionalista; e seu apego pelo ofício de poeta.

A escritora Florbela Espanca

Em “Vaidade”, por exemplo, Florbela constrói uma imagem egocêntrica de si mesma e, ao fim, brevemente a abandona. Falta auto-credibilidade à escritora portuguesa:

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

[…]

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho… E não sou nada!…

Em “Tortura”, ela complexifica e desafia a sua condição de poeta, numa relação permeada por dualidade emocional:

[…]

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que eu sinto!!

Já em “Amiga”, contemplamos a faceta de poeta que conferiu-lhe maior fama: a apaixonada enjeitada, que sofre o amor impossível.

[…]

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho…
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beijas-me bem!… Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!…

O mesmo em “De Joelhos”:

[…]

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo desta boca!!

A mesma face é apresentada em inúmeros exemplares de sua obra, outros poemas que se perpetuam com o tempo são “Fanatismo”, “Crucificada” e “Os Versos que Te Fiz”. No entanto, há muito mais de Florbela que os poemas que copiamos para as cartas de amores abalados. Por vezes, a idolatria ao seu país e aos tantos que dele partiam, aparecia em sua obra, caso de “O Teu Olhar”:

[…]

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centenas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-se assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

“Não Sou de Ninguém” pode pegar de assalto muitos leitores da escritora lusa. Um manifesto pela liberdade, tanto estética quanto sentimental, Florbela proclama em bom português a sua independência, ou seria solidão?

Eu não sou de ninguém!… Que me quiser
Há de ser luz do sol em tardes quentes;
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas dos videntes!

É nas várias “As Quadras D’Ele” que percebemos o aspecto mais ingênuo de Florbela. Sentimentos afáveis, muitas vezes otimistas, em rimas simples e fluidas.

Onde estás ó meu amor,
Que te não vejo apar’ecer?
Para que quero eu os olhos
Se não servem para te ver?

Que m’importa a luz suave
Dos olhos que o mundo tem?
Não posso ver os teus olhos
Não quero ver os de ninguém.

É um erro resumir Florbela a uma única performance. A experiente e talentosa portuguesa viveu a poesia em todos os momentos de sua vida. Vale a pena saboreá-la e conhecê-la verdadeiramente, sem os conceitos pré-concebidos aos quais a resumem.

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Sobre o Autor

Andressa Vieira

Jornalista, cinéfila incurável, cineclubista e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Possui cursos na área de cinema e trabalhos em jornalismo cultural. Especialista em Cinema. É diretora deste site.

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