Hoje em dia, muito se questiona a produção de listas e seu alcance na mídia. Há quem seja fã das listas pelo seu poder de organizar pensamentos, enumerar ideias, classificar coisas e até mesmo abordar um assunto de maneira mais rápida, quase que instantânea. Por outro lado, há quem as critique justamente pela simplicidade dessa linguagem, que, na ânsia por ser breve, muitas vezes pode pecar pela falta de profundidade. Basicamente, o que mais se vê é: ame-as ou deixe-as.

Entretanto, para qualquer um dos lados, algo é certo: ao contrário do que muitos acreditam, escrever listas não é um costume de agora, não é invenção das novas mídias. O hábito de escrever listas foi investigado a fundo por Shaun Usher, o mesmo autor do livro Cartas extraordinárias, em Listas extraordinárias, publicados no Brasil pela Companhia das Letras.

Shaun introduz que as listas existem desde que os homens começaram a andar pela Terra, “com a certeza de que todas as coisas estão sendo constantemente organizadas, priorizadas, classificadas e atualizadas até o fim de nossos dias”. Através da reprodução de 125 listas históricas, fica impossível não se apaixonar por essa linguagem.

Selecionamos algumas delas. Confira:

  • “Gosto, não gosto”, de Roland Barthes

Uma grande metáfora. Barthes divide diversas coisas das quais ele gosta e não gosta. Depois, diz que isso é inútil, não importa em nada. “Gosto, não gosto: isso não tem importância para ninguém; aparentemente, não tem sentido. E, no entanto, tudo isso significa: meu corpo não é igual ao seu. (…)”

  • “Os cinquenta anões”

Em 1934, quando começaram a trabalhar na versão cinematográfica de Branca de Neve, os roteiristas fizeram uma lista de nomes possíveis para os 7 anões, ainda não apelidados pelos irmãos Grimm. Dengoso, Zangado, Feliz, Soneca e Atchim saíram dessa lista. Alguns outros nomes curiosos, que ficaram de fora, são: Alinhado, Boboca, Faminto, Muquirana, Tagarela e Xereta.

  • Regras para criar um filho”, de Susan Sontag

Susan Sontag, grande escritora e intelectual do século XX, escreveu a lista a seguir lista aos 19 anos, ao engravidar de David, seu único filho. Separamos alguns pontos interessantes:

1. Ser coerente.

2. Não falar sobre ele com os outros (por exemplo, contar coisas engraçadas) na presença dele. (Não deixá-lo acanhado.) (…)

6. Não deixar que ele me monopolize quando eu estou com outras pessoas.  (…)

8. Não desencorajar as fantasias infantis.

9. Ensinar-lhe que existe um mundo dos adultos que não é da conta dele.

10. Não supor que aquilo que eu não gosto de fazer (banho, lavar o cabelo) ele também não gosta.

  • “Regras de convivência”, de Noel Coward

Noel Coward, dramaturgo, escreveu essa lista aos 16 anos ao lado de sua melhor amiga, Esmé Wynne. A ideia era que ambos assinassem e seguissem as regras aqui listadas, a fim de minimizar suas brigas.

(…) 3. Um nunca deve dedar o outro, mesmo que o RELACIONAMENTO termine, e todas as confidências devem ser consideradas sagradas. (…)

14. Ninguém, nem mesmo nossos pais, pode nos separar. (…)

  • “Clube antiflerte”, de Alice Reighly

Outro poder dessas listas está em revelar costumes das diferentes épocas. Hoje em dia, pode ser muito divertido ler essa lista de 1920, de um grupo de mulheres de Washington DC, com a finalidade de preveni-las de “novos constrangimentos” com o sexo oposto. São regras que valem para todas as participantes. Algumas delas:

Não use os olhos para flertar – eles foram feitos para coisas mais importantes. (…)

Não pisque – o movimento de um olho pode provocar uma lágrima no outro.

Não sorria para cortejadores estranhos – guarde seus sorrisos para quem você conhece. (…)

  • “Crença e técnica para a prosa moderna”, de Jack Kerouac

Um ano após a publicação de On the road, Kerouac escreveu essa lista de “itens essenciais” para autores de prosa moderna. A carta foi inicialmente enviada a seu editor Donald Allen e depois publicada na revista literária Evergreen Review.

1. Rabisque anotações em cadernos secretos e datilografe loucamente para o seu próprio prazer.

2. Esteja submisso a tudo, aberto, escutando

3. Procure não beber fora da sua própria casa

4. Seja apaixonado pela sua vida

5. O que você sente vai encontrar a própria forma (…)

10. Hora da poesia é a hora que é  (…)

19. Aceite a perda para sempre (…)

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Sobre o Autor

Regina Azevedo

Poeta, estudante de Multimídia, formada no curso FIC de Roteiro e Narrativa Cinematográfica pelo IFRN, apaixonada por História da Arte e fotografia.

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