Se eu puder indicar um único espetáculo potiguar para qualquer pessoa assistir, a resposta não demoraria a sair: a montagem Jacy é indispensável para qualquer brasileiro. O grupo Carmin me cativou de cara desde o nosso primeiro contato, quando comecei a acompanhá-los há coisa de três anos. Não me perguntem se é devido à competência e profissionalismo de Henrique Fontes; ou o talento e carisma indiscutíveis de Quitéria Kelly; ou a habilidade de se posicionar fora da caixa de Pedro Fiúza; obviamente que não dá para esquecer os toques especiais em cada espetáculo do artista e produtor Daniel Torres; o capricho na direção de arte do francês-quase-potiguar Mathieu Duvignaud; e a careja do bolo: os roteiros dinâmicos, relevantes e necessários que talvez sejam fruto da genialidade do grupo como um todo.

Segundo Henrique Fontes, o grupo Carmin encontra sua pegada particular “na pesquisa de dramaturgia, o cômico associado a temas sérios e a elaboração de uma obra que seja mais próxima do público”. Quase um bate-papo com a plateia, ele diz. E tem razão. Ao sair do espetáculo, você sente mais que acabou de deixar uma roda de conversas no qual muito foi dito, outras coisas ficaram no campo da intenção, entre um subtendido e outro, mas mesmo no silêncio, muito foi compreendido, porque as temáticas são lapidadas de forma a atingir um contexto do qual todos nós fazemos ou um dia faremos parte.

Os fatos são: o Grupo Carmin completa 10 anos neste mês e Natal se não está, deveria estar em festa junto com eles, pois a terra da garoa nem comeu do bolo e bateu parabéns com vontade. A trupe circulou em 2016 com “Jacy” por 18 estados brasileiros, e a peça foi eleita, pelo jornal Estado de São Paulo, um dos 10 melhores espetáculos do Brasil em 2015, e ainda acaba de fazer temporada no Sesc Pinheiros em São Paulo. Voltou para Natal com gosto de gás para 10 apresentações durante todo o mês de abril. Já foram quatro, mas a notícia boa é que você, que ainda não assistiu a Jacy, tem mais seis chances para levar esse alerta a sério e correr para a Casa da Ribeira às 20h em qualquer sábado ou domingo, até o dia 30, e usufruir da oportunidade de aplaudir de perto uma montagem potiguar que ganhou reconhecimento nacional.

A temporada recente em São Paulo rendeu críticas nos dois principais jornais da cidade: A Folha de São Paulo (Crítica de Valmir Santos – Folha SP ) e no Estado de São Paulo (Crítica de Maria Eugênia de Menezes – Estadão) e uma entrevista empolgante ao jornalista Paulo Henrique Amorim no Coversa Afiada, além de ter sido vista por figuras ilustres do teatro e da música como o diretor Antunes Filho, o ator Gero Camilo e o músico Chico César.

Sobre Jacy

A peça, que completa 4 anos de estreada este ano, foi criada a partir do encontro fortuito de uma frasqueira abandonada em uma das ruas mais movimentadas da cidade de Natal. Ela reconta a história real de uma mulher nascida em 1920 que na década de 1940, durante a 2ª Guerra, se apaixonou por um capitão americano; na década de 1960-70 atravessou a ditadura no coração político do Brasil e terminou seus dias, na primeira década dos anos 2000, sozinha, em Natal. Um dos mistérios retratados em cena se esconde atrás de uma pilha de recibos de correspondências, referentes a encomendas mensais postadas por Jacy para um homem, no Rio de Janeiro. Estas encomendas nunca pesaram mais que 20 gramas e o seu conteúdo, ninguém sabe.

Um assunto que atravessa toda a peça é a forma como a sociedade brasileira trata os mais velhos e suas histórias. “Há uma cultura de supervalorização dos mais jovens e de descarte dos mais velhos. E o que é mais assustador é a ausência de políticas públicas efetivas para o idoso,” comenta Henrique. Assim, Jacy representa a vida de muitos que envelhecem e tem suas histórias jogadas, literalmente, no lixo. Ao mesmo tempo, ela relata o descaso da sociedade com os mais velhos e com o próprio destino das cidades que também envelhecem e que, em muitos aspectos, são abandonadas.

O que tem de novo?

As comemorações de 10 anos do grupo contemplarão estreia da peça nova “A Invenção do Nordeste”, a exposição da história do Grupo e o lançamento de livro com toda sua dramaturgia. Henrique nos adiantou um pouco do que está engatilhado para a próxima montagem, “A Invenção do Nordeste”, que deve estrear em julho (“se conseguirmos alguma grana pro cenário e figurino”, ele pontua), tem direção de Quitéria Kelly com assistência de Pedro Fiuza e é baseada no livro homônimo do professor Doutor Durval Muniz de Albuquerque Jr. O espetáculo está em processo de montagem e retrata a ficção regionalista que criou a identidade nordestina, o que acabou gerando preconceitos e exclusões. A peça tem dramaturgia de Pablo Capistrano e Henrique Fontes e no elenco Mateus Cardoso, Robson Medeiros e Henrique Fontes. A direção de arte será novamente assinada por Mathieu Duvignaud e a trilha fica por conta do Gabriel Souto.


Confira uma curta entrevista que fizemos com o Henrique Fontes, diretor, ator e dramaturgo em Jacy, sobre a peça e a atuação do Grupo Carmin em Natal:

O CHAPLIN: São 10 anos de Carmin e 4 de Jacy. O que mudou (no Carmin e em Jacy)?
Henrique Fontes: Acredito que o Grupo aprofundou a pesquisa de uma dramaturgia que sempre veio da rua e dos excluídos. Nossa pegada sempre foi o nordeste urbano e suas fraturas sociais. Primeiro com Pobres de Marré que tratava de moradas, não-pedintes, de rua. Depois com Jacy que trata da exclusão dos idosos e da nossa política cíclica e oligárquica. Em seguida com Por Que Paris? que visita a vida e obra de uma indochino-francesa, a escritora Marguerite Duras e toda sua luta para ser uma mulher escritora que tinha a mãe como algoz e denunciava já nos anos 70 o colonialismo francês que, de certa forma, eclode sua consequência agora com os atos terroristas.  Atualmente o Grupo monta “A Invenção do Nordeste”, sob a direção de Quitéria Kelly e que trata da nossa exclusão enquanto região “inventada” a partir do regionalismo. Acho que a mudança se deu no amadurecimento e organização profissional do Grupo.

O CHAPLIN: E o que não mudou?
Henrique Fontes: O nosso incômodo com a situação política brasileira e potiguar. Não é possível olhar todas as atrocidades de décadas de desgoverno e, agora, de um governo golpista que vem dizimando a cultura, a educação, os indígenas e várias organizações sociais que foram empoderadas na última década.

O CHAPLIN: Recentemente Jacy conseguiu abrangência nacional, inclusive com críticas de conceituados veículos. Como foi a experiência de uma temporada longe de onde Jacy surgiu? Foi preciso fazer alterações no roteiro para dialogar com os novos públicos? Em que o grupo cresceu com essa experiência?
Henrique Fontes: Foi uma experiência realmente importante e definidora para o Grupo Carmin poder entrar no cenário nacional tão dominado por grupos apenas de São Paulo, Rio e Minas. Não adaptamos nada para a realidade local, porque com a circulação do Palco Giratório em 2016, que nos levou a 16 estados brasileiros, percebemos que o tema e a história criadas em Jacy são universais. O Grupo Carmin tenta agora uma nova temporada pelo sudeste ou sul, possivelmente com a nova peça que estreia em julho.

O CHAPLIN: Fazer Teatro em Natal. O que vem à cabeça?
Henrique Fontes: Trabalho, trabalho e mais trabalho, rsrs. Acho que em todo lugar do mundo é assim. Claro que a dificuldade de uma politica pública de cultura estruturante em Natal e no RN deixa tudo mais difícil. Os gestores públicos parecem não estar a serviço do fomento às artes e cultura. Talvez eles ainda imaginem, como se pensava da década de 60, que a cultura é apenas o enfeite da gestão do candidato eleito. Então a festa é feita e o pão e circo alimenta e cala a população. Eu acredito que o povo já não come esse pão e circo com o mesmo apetite ou digestão.


SERVIÇO

JACY – 10 Grupo Carmin
Quando: Entre os dias 01 e 30/04, sábados e domingos às 20h
Quanto: R$ 20 (meia) e R$ 40 (inteira).
Onde: Casa da Ribeira (Rua Frei Miguelinho, 52, Ribeira. Fone: 3211-7710)
Venda de ingressos: Bilheteria da Casa (3211-7710 à tarde) ou online no www.sympla.com.br/casadaribeira

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Sobre o Autor

Andressa Vieira

Jornalista, cinéfila incurável, cineclubista e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Possui cursos na área de cinema e trabalhos em jornalismo cultural. Especialista em Cinema. É diretora deste site.

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