8.5"Nota Total"
Nota do Leitor: (0 Votos)
0.0

Sempre que alguém mexe em alguma obra cultuada, seja para fazer uma sequência, remake ou live-action (olá Bela e a Fera), está lidando com uma granada de fracasso cujo pino raramente pode ser recolocado. É o caso de Ghost in the Shell, obra concebida primeiramente em mangá por Masamune Shirow e que posteriormente virou o cultuado anime em 1995 Ghost in the Shell – O fantasma do Futuro, dirigido por Mamoru Oshii, e também vários spin-offs, games e sequências, compondo todo um universo que inspirou obras como Matrix. Por tudo isso, a aposta pareceu certeira para o estúdio.

Ghost in the Shell – A Vigilante do Amanhã, a mais nova adaptação, segue a tradição de nomear o título original com um saído da sessão da tarde assim como o de 95. Os fãs revisitam, e os que não conhecem passam a conhecer a história de Major (Scarlett Johansson), uma humana que sofreu um acidente e teve sua vida “salva” quando cientistas fizeram um corpo robótico para o seu cérebro, única parte restante do acidente. Mas o mundo é diferente do de agora: em 2030 é comum pessoas terem partes do corpo robóticas mais potentes e com obsolescência programada; no caso de Major, ela faz parte da primeira da geração de corpos inteiramente fabricados da Hanka Corporation.

Após mostrar esse processo com uma sequência de tirar o fôlego da construção do corpo robótico, inspirada em cenas de O Fantasma do Futuro com direito a mergulho em substância branca à lá Westworld (HBO), o filme que não é uma cópia live-action do filme de 95 mostra Major um ano depois, já inserida no departamento de combate ao ciberterrorismo da polícia a Seção 9. A cena que vemos segue uma sequência inspirada no primeiro episódio anime de 2002 Ghost in the shell – Stand Alone Complex  (que vimos quase na sua totalidade no trailer), uma cena de ação de uma missão da seção envolvendo mala que se transforma em arma e robôs-gueixa que se dobram como aracnídeos.

Que bonito hein?

Seguindo essa investigação junto com seu parceiro Batou (Pilou Asbaek, que atuou com Scarlett no filme do pendrive, Lucy) e sob o comando de Aramaki (Takeshi Kitano, que fala apenas em japonês durante o filme inteiro), Major encontra um hacker terrorista misterioso chamado Kuze (Michael Pitt) conforme vai investigando o ataque terrorista, e com isso se dá o aparecimento de glitches, tal qual nos programas de computador corrompidos,  se intensificando durante o dia-a-dia da policial.

O filme é ambientado em Newport City, cidade fictícia inspirada em Tóquio e não mais em Hong Kong como em O Fantasma do Futuro. Na cidade japonesa, no lugar dos painéis de LED, são os hologramas gigantes que existem em conjunto com os arranha-céus. No entanto, a escolha visual de como essa cidade é apresentada é semelhante a do clássico de 95. Em algumas sequências a maneira comum aos mangás e ao anime de apresentar cena de aspecto-para-aspecto que mostra um cenário inteiro em partes é honrada, sendo até mesmo o avião que sobrevoa a cidade do mesmo estilo. A escolha de cortes de cabelo e figurinos são também respeitadas, o que nos leva ao questionamento que tem sido o centro de debate sobre o filme assim que a escolha de Scarlett para o papel foi anunciada: as denúncias de whitewashing (embranquecimento) por parte da produção.

Arrancando uma pequena peça

As denúncias de whitewashing (embranquecimento) neste filme são pertinentes? A resposta é não, pois a filosofia em que se inspira e respira Ghost in The Shell não permite que o argumento seja usado pra explicar o porquê da protagonista ser branca. Mas como assim?  Em Ghost in The Shell se vive num mundo onde o conceito de etnia já não existe, uma multicultura, o perfeito retrato da Globalização plena. Ok, mas isso ainda não explicou o porquê a protagonista é branca num filme asiático… Certo, então vamos adicionar o elemento em que o corpo e a aparência de Major é apenas uma casca, “Shell”, e foi produzido por uma empresa americana, em que trabalham inclusive a francesa Dra Ouelet (Juliette Binoche). Ou seja, qualquer pessoa poderia interpretar a policial. Se a inspiração para o filme tivesse sido sua sequência “Ghost in the Shell – Innocence”(2004) com certeza veríamos uma aparência mais asiática em Major. Fora que uma atriz com 20 anos de experiência e com carreira solidificada como Scarlett empresta uma solidez para os grandes investidores da indústria dos filmes que querem que ele venda não só em um lugar, mas em todo o planeta.

Certo, mas esse roteiro não foi modificado para que não houvesse pano pra manga? O roteiro é baseado no original, inclusive em 1995 a “Casca” de Major não parece muito asiática, diferentemente da nova adaptação da Netflix, Death Note, na qual além da escolha de um ocidental para o papel adaptaram e mudaram a história para que ela se passe nos EUA… E os japoneses não ficaram ofendidos? Um canal no youtube inclusive foi questionar japoneses sobre isso e as respostas deles foram sobre não se importar com a cor da atriz escolhida e ressaltar as qualidades de Scarlett para o papel (acho que todos nós sabemos as qualidades uma atriz desse quilate, que inclusive virou robô também na vida real).

Bom, a maior parte dos críticos se concentrou tanto em apontar o embranquecimento e a possível apropriação cultural que esqueceu de focar no filme e no que ele não entregou. A enorme carga filosófica de Major e seus questionamentos sobre “o ser humano”, ” o que faz de nós humanos?”, “o que somos por fora nos define?”, as profundas reflexões sobre realidade foram deixadas de lado em nome de grandes e lindas cenas de ação. O diretor quase estreante Rupert Sanders parece ter um fraco pela escolha do visual antes dos roteiros. Talvez isso seja um reflexo do seu passado como diretor de comerciais para grandes marcas (xbox, heineken, etc). A mesma coisa pode ser vista no seu filme de estreia, Branca de Neve e o Caçador (2012), mais falado pelo escândalo de traição de Rupert com a atriz principal Kirsten Stewart que pela qualidade cinematográfica.

Ter um filme com uma tradição e uma carga tão grande foi talvez um presente muito grande para um segundo filme, um presente muito grande para mãos tão pequenas que não conseguiram pegar todos os detalhes. Com esse esvaziamento da parte filosófica, o filme se torna apenas uma experiência visual que diverte, mas não chega perto de encantar tanto quanto a obra em que ele foi inspirado.

P.S. Menção honrosa para o spot criado pela Cinépolis em forma de Glitch que passa antes do filme.

Assista ao Trailer

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Pin on PinterestEmail this to someonePrint this page

Comentários

comments

Sobre o Autor

Emilly Lacerda

Dotada de um humor estranho e viciada na busca por música nova. Ama HQ, gibi e as demais coisas que envolvem literatura e arte. Formada em Jornalismo e cursando Rádio & TV na UFRN.

Deixe um comentário

Seu endereço de email não será publicado.