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9.9

Como muito bem disse Don Draper, um dos grandes filósofos contemporâneos, o ser humano é um ser falho, por sempre querer muito mais do que possui. E um ser condenado, por conseguir mais e sentir saudades daquilo que tinha antes. Estamos fadados à perpétua insatisfação, e se há algo transparente em T2 Trainspotting (2017) é a ânsia por aquilo que já foi, na esperança de conseguir sentir algo novamente.

T2 Trainspotting é uma excelente sequência, como raras hoje em dia, formando um complemento apropriadamente histórico e que provê novo sentido aos eventos do filme original… mas ao mesmo tempo, não funciona com pernas próprias, pois precisa do filme original para ter qualquer vida. Pode-se dizer isso de qualquer sequência? Talvez. Mas fato é que T2 pode simplesmente se tornar uma experiência tediosa e sem sentido para aqueles que não assistiram ao filme de 1996 (como a minha namorada, que arrestei para o cinema comigo. Sorry :/).

Dizer que é uma excelente sequência não significa dizer que é um excelente filme. É um bom filme, claro, com um punhado de cenas brilhantes e muito bem elaboradas, mas que não possui a mesma energia e vitalidade do filme original, funcionando melhor pela nostalgia do que por méritos próprios. E é apropriado que nostalgia seja justamente o tema maior que motiva o filme.

Jonny Lee Miller e Ewan McGregor: velhos amigos lembrando os bons (e maus) tempos.

Ao final de Trainspotting, deixamos nosso personagem principal, Renton (Ewan McGregor), traindo os amigos e fugindo com o dinheiro de um negócio de drogas bem executado. É um momento crucial, em que decide cortar todos os laços com uma vida livre de responsabilidades e assombrada pelo vício em heroína por uma vida “normal”, com feriados bancários, escritório de 9h as 17h, fundos de investimento e televisão grande no meio da sala.

Em T2, reencontramos Renton, agora um contador, refugiado em Amsterdam, correndo em uma esteira de academia – uma contraposição imediata ao seu passado, em que corria da polícia pelas ruas de Edimburgo. O tédio transparece e transborda pelos seus poros e o clique inicial para o seu retorno é um perfeito combo de divórcio, demissão, susto cardíaco e um sentimento de culpa que nunca foi embora.

Renton encontra uma Edimburgo bem diferente do que 20 anos atrás e, assim como qualquer pessoa que conheceu a cidade em diferentes momentos de sua história, se descobre com uma grande sensação de estranheza. O povo gentil e o charme medieval ainda estão lá, mas tudo parece diferente em alguma medida: uma cidade gentrificada, mais limpa, global. Um cenário impensável para a juventude pessimista escocesa retratada no filme dos anos 1990.

Ewan McGregor e Ewen Bremmer: O que ele esperava que um viciado em heroína iria fazer com 4 mil libras?

Renton não demora a procurar seus antigos amigos, confrontando-se com o resultado de suas ações. Sick Boy (Jonny Lee Miller) continua o mesmo trapaceiro, fazendo-se valer da lei do menor esforço; Spud (Ewen Bremner), o mais frágil do grupo, ainda luta diariamente contra o vício; e o psicótico Begbie seguiu o caminho natural e parou na cadeia. A traição de Renton não foi esquecida e é o seu retorno que irá coloca-los novamente no caminho um dos outros em uma trama que envolve novos golpes, amizade, traições e muita, muita nostalgia.

A questão é que mesmo que muitas coisas interessantes possam ser construídas em cima de nostalgia (como Stranger Things mostrou ano passado), no final das contas funciona sempre como uma tentativa de imitar e resgatar sentimentos e essa tradução nunca é perfeita. Podemos tentar resgatar sensações e em alguma medida podemos senti-las novamente, mas jamais vive-las novamente. Nunca serão a mesma coisa.

Nesse sentido, T2 Trainspotting pode ser muito bem resumido na cena em que Renton, com seus 40 e muitos anos, foge desesperado de Begbie (agora um senhor) em um estacionamento, onde é atropelado e começa a sangrar – sensação que encontra com surpreendente prazer. É um resgate da sua vida anterior de junkie e uma forma de voltar a sentir algo, coisa que sua asséptica vida moderna inibe. Mas não é a mesma coisa. Nunca será. Em T2, tudo remete a sensações do filme original, o humor, a dinâmica da história, as composições de cena criativa, as atuações, mas sempre transparece como um simulacro, nunca realmente “chegando lá”.

Ewan McGregor e Robert Carlyle: Traições e mais traições.

Não seria essa a grande virtude e o pecado da nostalgia? Remeter a algo de nosso passado, mas nunca conseguindo nos satisfazer por completo, algo que seria impossível devido à própria inevitabilidade do tempo?

Sempre haverá uma ponta de tristeza na nostalgia, o que não significa que ela não é válida. Danny Boyle não é mais um diretor iniciante tentando se provar, como era 20 anos atrás; assim como Ewan McGregor, Jonny Lee e Robert Carlyle, todos estiveram envolvidos em dezenas de projetos desde o primeiro filme. É possível sentir a importância que este projeto possui para os seus autores, e é encantador assistir a T2 sendo um grande fã do filme original, mas ele é o que ele é, nada mais ou nada menos do que se propõe: a continuação de uma história e uma bela peça de nostalgia.

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Sobre o Autor

Diego Paes

Formado em Relações Internacionais, Mestre e talvez Doutor (me dê alguns meses) em Administração, mas que tem certeza de que está na área errada. Pode ser encontrado com facilidade em seu habitat natural: salas de cinema. Já viu três filmes no cinema no mesmo dia mais de uma vez e tem todas as fichas do IMDb na cabeça. Ainda está na metade da lista dos Kurosawa e vai tentar te convencer que Kieslowski é o melhor diretor de todos os tempos.

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