Continuando a série de postagens “Diário de uma intercambista” (confira aqui a primeira matéria da série), durante minha estadia no Canadá, também pude acompanhar um dia das gravações da sexta temporada de Once Upon a Time. As gravações acontecem em grande parte na vila de Steveston, cerca de 20 km do centro de Vancouver, e normalmente iniciam em julho. Qualquer pessoa pode acompanhá-las, e a página Real Storybrooke, gerida por fãs da série no facebook, costuma informar os dias e horários das gravações. Acompanhei um dia de gravações com uma amiga intercambista que também gosta da série isso em julho do ano passado. Tivemos que pegar um skytrain (equivalente ao metrô) no centro de Vancouver pela manhã e um ônibus no centro de Richmond para chegar até Steveston, em uma viagem que durou em média uma hora.

Centro de Steveston. Crédito: Isa de Oliveira

A vila, muito pequena em extensão, divide-se em três cenários. O primeiro é o que podemos chamar de centro, com poucas ruas, mas repletas de casas de madeira (uma mais fofa que a outra) e que são reais. A maioria delas transformou-se em lojas e restaurantes; então, sim, é normal tomar café ou comer uma pizza enquanto assiste de longe a mais um episódio de Once Upon a Time ser gravado. É claro que dependendo do tipo de gravação algumas dessas lojas têm que fechar.

O segundo cenário é o cais. Steveston é uma vila pesqueira onde estão localizados vários restaurantes (muitos chineses), e uma espécie de museu do peixe. A visão do cais é de tirar o fôlego e a mudança de ambiente comparado ao centro é muito perceptível. Enquanto no centro turistas misturam-se com locais a maioria falando em inglês, a zona do cais é altamente turística e tomada por chineses. Mal se escuta inglês.

Cais do Rio Fraser. Créditos: Isa de Oliveira

O terceiro cenário é a área residencial, um pouco mais afastada da parte central. O formato lembra um condomínio fechado de luxo, com direito a lago particular e uma grande piscina de água natural. O termo “condomínio fechado” só não se encaixa perfeitamente à situação pelo lugar não ser fechado. Qualquer pessoa tem acesso, e é comum tirar fotos porque é bem bonito.

As gravações de Once Upon a Time basicamente acontecem no centro e no cais, e é chocante o quão pouco a produção adapta. Caminhar pelo centro de Steveston para um fã da série é como de fato estar em Storybrooke. As pequenas adaptações resumem-se ao nome original de algumas lojas e restaurantes e à torre do relógio em cima da biblioteca de Storybrooke. Na vida real, a torre do relógio não existe sendo criada por computação gráfica.

Área residencial. Crédito: Isa de Oliveira

Um mapa com todas as locações da série é disponibilizado para turistas no Museu de Steveston, onde também é possível se informar sobre as próximas gravações e comprar vários itens da série como camisetas e bottons, vendidos a um preço bem salgado. Aliás Steveston é um lugar não muito recomendado para quem costuma não se conter na hora das compras, pois as coisas costumam ser bem caras por lá, desde presentes supérfluos até comida. A parte positiva é que a recepção é ótima, e você será recebido com frequência com sorrisos e muita atenção em qualquer local que passe.

As gravações naquele dia ocorreram em dois lugares: o primeiro foi em um parque montado para ser (imagino) o cemitério de Storybrooke e o segundo foi nas ruas do centro, próximo ao museu de Steveston. A produção chegou no final da manhã, composta por uma pequena equipe de paisagistas, seguranças e assistentes técnicos. Como o parque era grande e tinha muitas árvores, eles não tiveram tanto trabalho em tornar o ambiente algo mais parecido com uma floresta sombria. A equipe de paisagistas era liderada por uma mulher de meia idade com alguns arranhões nas pernas, provavelmente causados pelas árvores. Ela não apenas dava instruções para a equipe como também animava as pessoas que assistiam. Em pouco, tempo ela tornou-se a pessoa mais popular do lugar, e eu me sentia em um programa de auditório. Segundo relatos de algumas pessoas que estavam assistindo, às vezes a equipe distribui comida para os fãs, mas eu não tive essa sorte.

Museu de Steveston. Crédito: Isa de Oliveira

Falando neles, é difícil ter uma ideia exata de quantas pessoas estavam lá assistindo, especialmente após um ano, mas certamente havia mais de 30 pessoas. O público presente era bem misto: as duas intercambistas brasileiras e nordestinas nos seus 20 anos que vos falam; os eufóricos fãs mirins e adolescentes acompanhados dos pais; os seguidores fiéis da série que variavam muito de idade e pareciam conhecer cada membro da equipe, a maioria deles vindos dos EUA como uma senhora de Michigan. Ninguém sabia o nome dela, só que ela era “americana e de Michigan, e um pouco maluca porque é assim que os americanos são”, frase que ela repetia várias vezes.

Verdade seja dita, a mulher era boa de investigação. Em pouco tempo ela fez amizade com a equipe e descobriu o horário e local das gravações daquele dia, como também quem estava escalado para filmar. Basicamente para as gravações no parque de Steveston participaram Lana Parrilla (Regina – Rainha Má) e Ginnifer Goodwin (Mary – Branca de Neve), e para as gravações nas ruas do centro praticamente todo o elenco principal participou a segunda etapa estendendo-se até a madrugada. A senhora de Michigan estava especialmente animada para ver Ginnifer, de quem ela era mais fã, e havia trazido um coelho de pelúcia similar ao coelho protagonista da animação Zootopia (2016), ao qual a atriz emprestou a voz, na esperança de se fazer notar e talvez conseguir uma foto. Segundo minha colega, ela havia estado presente nas gravações do dia anterior em North Vancouver com o mesmo objetivo, mas sem sucesso.

Lana Parrilla e Ginnifer Goodwin (ao centro). Crédito: Isa de Oliveira

Lá pelas 15 horas, as atrizes finalmente chegaram para gravar. E acompanhar o processo de gravação daquela cena, que durou em média de duas a três horas, foi uma experiência interessante de início, mas confesso que me entediou um pouco mais tarde. As atrizes inicialmente fizeram um ensaio apenas lendo o texto, uma, duas, três vezes, tiraram algumas fotos, em seguida saíram do set rumo aos seus trailers para finalmente colocar seus figurinos. Ao voltarem as gravações finalmente começaram.

Era uma cena simples, uma conversa rápida entre Regina e Mary no cemitério, talvez de um minuto e meio ou dois. Próximo ao fim da cena, Lana fez gestos com as mãos para o nada, o que provavelmente indicava algum feitiço a ser reproduzido no computador. A cena foi repetida várias vezes e durante todo o tempo os seguranças fizeram um cordão de proteção para impedir que ultrapassássemos esse isolamento. Ainda sim estávamos muito perto e a produção pedia a cada filmagem para que ficássemos em silêncio, algo atendido por todos.

Com o fim das filmagens no parque, os fãs aplaudiram e começaram um coro de parabéns para Lana, pois o aniversário dela seria dali a alguns dias e adivinha de quem foi a ideia? Sim, da senhora de Michigan. A atriz, muito simpática, agradeceu sorrindo e acenou para nós, fazendo muitos gritarem. E, seguida, fomos todos juntos em procissão rumo a uma das principais ruas de Steveston. A nova etapa das filmagens seria mais grandiosa, e a equipe de produção fechou parte da rua. Dessa vez ficamos mais distantes e era difícil distinguir quem era quem. Mas aos poucos os fãs começaram a diferenciar os atores, e ouviram-se muitos gritos para Lana, Jennifer Morrison (Emma) e Colin O’Donoghue (Killian -Capitão Gancho), os mais populares ali.

Elenco ensaiando. Foto tirada antes do segurança perceber que eu estava perto demais. Crédito: Isa de Oliveira

Os preparativos para essa etapa das filmagens foram semelhantes ao anterior. Teste sem figurino, fotos e finalmente as gravações com várias tentativas, até lá já passava das 18 horas. Diferente da anterior, nessa nova etapa era difícil saber o que estava acontecendo, pois a equipe gravava algo no meio da rua, depois entrava numa loja e voltavam às ruas. Do que pude acompanhar das gravações na rua, era uma cena em que todos olhavam em direção ao céu assustados. Para a cena, a equipe usou uma grande câmera acoplada a um carro através de um equipamento que regulava a altura da câmera  para que ela ficasse bem em cima deles.

Como eu sabia que as gravações entrariam na madrugada e o frio já ameaçava tomar conta, não fiquei muito tempo, saindo uma ou duas horas após terem sido iniciadas. Minha colega ficou na esperança de poder tirar uma foto com eles. Infelizmente, para os fãs, eles pareciam muito focados nas gravações e deram pouca atenção para sua audiência, mas alguns sortudos, como minha colega, conseguiram a tão desejada foto. E não até onde eu sei, a senhora de Michigan não foi notada por Ginnifer.

O mais interessante é que eu ainda não vi toda a sexta temporada de Once Upon a Time. Cheguei a assistir ao primeiro episódio e notei algo curioso: eu não conseguia mais me concentrar na história. A cada cena eu não mais via Storybrooke e sim Steveston, e isso de certa forma quebrou a magia. Talvez seja verdade que não devemos conhecer nossos heróis.

SOBRE ONCE UPON A TIME

Série de fantasia produzida pela emissora americana ABC. No Brasil, é exibida pela Sony desde 2011. A série trabalha com a premissa dos velhos contos de fadas (Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, dentre outros), e tudo se desenrola na cidade fictícia de Storybrooke, considerada “o mundo real”, como também intercala situações do passado ocorridas no que podemos chamar de “mundo das fantasias”. A série trabalha com um plot que visa desconstruir a ideia inicial de que se tinha dessas fábulas, levando para um lado mais sombrio. Atualmente, a produção está filmando a sétima temporada.

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Sobre o Autor

Isa de Oliveira

19 anos. Estudante de Jornalismo pela UFRN, Fã dos livros e filmes da vida. Meio nerd. Meio Rock N Roll.

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