Em janeiro deste ano, a Revista Bula publicou uma matéria assinada por Carlos Willian Leite com uma lista do que seriam os cinquenta melhores livros da história da literatura mundial. Chamou-me atenção particularmente o fato de, segundo o autor do texto, tratar-se de uma lista apurada que levava em conta “listas publicadas por jornais, revistas e sites especializados em listas, mercado editorial e livros”, uma seja, trata-se da “lista das listas”, um compilado que buscava a objetividade dentro de um grande número de rankings subjetivos pregressos.

Foi com empolgação que recebi o material como um dos norteadores para minhas leituras posteriores, no entanto, não sem antes identificar algumas lacunas de representatividade dentro daquele panteão das 50 obras literárias mais idolatradas em todo o mundo. Vamos às conclusões:

  1. Não lemos mulheres

É um tanto assustador, mas entre as cinquenta obras consideradas as melhores de todos os tempos, figuram apenas três escritas por mulheres. O top 10 não conta com uma única escritora, sendo a primeira menção feminina na lista a obra “Orgulho e Preconceito”, escrita por Jane Austen, que figura no 12º lugar. Depois dela, encontramos Virginia Woolf, com o seu “Rumo ao Farol”, ocupando o 30º lugar, e por fim “Memórias de Adriano”, da francesa Marguerite Yourcenar, na 44ª posição. Nenhuma menção a qualquer uma das irmãs Brontë, nem mesmo a “O Morro dos Ventos Uivantes”, Mary Shelley, Florbela Espanca, ou às pratas da casa, Clarice Lispector ou Cecilia Meireles. Sem ignorar o fato de que, evidentemente, chegam menos mulheres que homens às prateleiras das livrarias, o que pode ser uma boa explicação para o fato de que a lista em questão seja 94% masculina.

2. Livros de língua portuguesa são pouco conhecidos

Outra constatação ao analisar a lista é que os livros escritos originalmente em língua portuguesa são pouco conhecidos. Apesar de “Dom Casmurro”, entre tantas outras obras consagradas de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos e (novamente) Clarice Lispector, nenhum desses nomes é citado na lista das 50 melhores obras da literatura. O Brasil é representado unicamente pelo livro “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, na 14ª posição. Portugal, por sua vez, conta com representação dupla, “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, em 26º lugar e, na rabeira da lista, constando no último lugar, “Memorial do Convento”, de José Saramago. Ao todo, três livros de língua portuguesa compõem o elencado, uma representação de apenas 6%.

3. Nosso conceito de literatura é americano e eurocêntrico

O dado mais chocante que podemos colher da lista é, no entanto, a completa ausência de qualquer título oriental ou africano. O país mais “à direita” representado é a Rússia, nos faltando qualquer menção a escritores da Índia, Tailândia, China, Japão, Coréia ou de qualquer um dos países da África. Isso prova que, no que concerne à literatura considerada “de ponta”, ainda precisamos percorrer muitos pontos do mapa mundi para chegar a uma conclusão razoavelmente justa e temporariamente definitiva. Falta-nos conhecimento geral para elencar uma lista que seja relativamente honesta à literatura mundial.

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Sobre o Autor

Andressa Vieira

Jornalista, cinéfila incurável, cineclubista e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Possui cursos na área de cinema e trabalhos em jornalismo cultural. Especialista em Cinema. É diretora deste site.

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