Cada vez mais pessoas têm se valido do título “crítico de cinema”. A popularização da internet e a consequente facilidade de as pessoas divulgarem suas opiniões deram espaço para que muita gente, baseada tão somente no senso comum, se autoproclame um crítico. Eu mesmo, inclusive, já me vangloriei desse status. Depois de várias leituras e pesquisas no meio acadêmico da comunicação, no entanto, decidi refutar essa ideia e ser mais humilde, por não me sentir pronto.

Antes que digam que estou criticando a internet porque ela dá voz a pessoas raivosas, é óbvio que sua popularização tem muitos pontos positivos, como por exemplo: dá voz a entusiastas de cinema que não são da área de comunicação/cinema como também revela, por meio dos veículos independentes, talentos dessa área que não têm emprego fixo em jornais e revistas.

Treino, sensibilidade, estudo e, principalmente, muita bagagem são pilares que capacitam o indivíduo a ser um bom crítico de cinema. O principal papel de um crítico, seja de cinema ou de qualquer outra forma de arte, não é o de pré-determinar uma opinião no leitor, mas guiá-lo de forma coerente e embasada ao ver um filme ou consumir uma obra. Apesar de exercer razoável influência no comportamento dos espectadores, os apontamentos de um crítico não são a palavra final quanto ao sucesso ou fracasso de uma obra, mas sim uma série de fatores relacionadas ao público consumidor, como divulgação adequada, preço dos ingressos, dentre outros.

Geralmente, o crítico é formado em jornalismo ou em cinema. Em relação ao viés jornalístico da coisa, a crítica em si não pode ser uma opinião extremamente fria e descritiva, como o que se espera de um relato jornalístico. As imagens exibidas na tela despertam sentimento no espectador. Jacques Aumont cita em seu livro “A Imagem” os conceitos de “reconhecimento” e “rememoração”, os quais, basicamente, são percepções visuais interligadas à sentimentos individuais do espectador. Cabe ao crítico transparecer isso em seu texto, o que faz com o que o texto não seja totalmente imparcial.

Rubens Ewald Filho, um dos críticos de cinema mais experientes do Brasil e com reconhecimento internacional

Tachado de “chato”, “arrogante”, e às vezes palavras bem piores do que essas, o crítico precisa mesmo assim trazer uma opinião mais diferenciada, especializada sobre a obra. Ele não pode fugir da tarefa de ranquear o filme pelo simples motivo de que o ser humano enquanto animal dotado de discernimento precisa de métricas para embasar e classificar se um filme é bom ou ruim. É claro que cada um tem seus próprios motivos e argumentos para atribuir notas, mas isso já é assunto para outro texto.

Nesse sentido, a crítica tem especial importância, e Wilson Gomes, no seu livro “Jornalismos, Fatos e Interesses” fala sobre a legitimidade jornalística: “[…] a legitimidade se fundamenta em termos da função social da instituição, isto é, da função prática que a instituição cumpre no interior de uma sociedade qualquer. […]” (Gomes, 2009 p. 68). Portanto, enquanto profissão, os críticos provêm, de fato, um serviço a sociedade ao externar opiniões concretas e embasadas sobre o assunto. Contudo, cabe inteiramente ao leitor decidir e filtrar o conteúdo absorvido, comprovando, com seus próprios olhos na condição de espectador, sobre o que um autor falou. E isso inclui discordar do crítico, se for preciso.

Em suma, para quem deseja seguir na função e transformar um hobby em uma profissão, busque sempre se aperfeiçoar na área. Se um filme for ruim, não fale mal apenas por falar. Embase, pesquise e estude o porquê da obra não ter lhe agradado. Além disso, converse com outras pessoas que não compartilhe da mesma opinião e sempre tenha em mãos os dois lados da moeda.

Referências:

AUMONT, Jacqus. A Imagem. França: Papirus, 1993

GOMES, Wilson. Jornalismo, Fatos e Interesses. Florianópolis: Insular, 2009.

Texto de Pablo Villaça: O crítico, profissional em extinção <http://diariodebordo.cinemaemcena.com.br/?p=1962>

Entenda Melhor | A tarefa do crítico e uma breve história da crítica de cinema no Brasil <http://www.planocritico.com/entenda-melhor-a-tarefa-do-critico-e-a-uma-breve-historia-da-critica-de-cinema-no-brasil/>

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Sobre o Autor

Vinícius Cerqueira

18 anos, baiano de raça pura, nerd em formação, amante assumido da sétima arte e polêmico em seus textos nas horas vagas.

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