Não faz muito tempo, calhou de chegar às minhas mãos o livro “O lado escuro da madrugada”, escrito pelo romancista estreante Roberto Giacundino e publicado pela Editora Pandorga. A sinopse empolgou de cara: obviamente, uma jornalista fã de Agatha Christie e Conan Doyle viria a simpatizar com um romance policial moderno que tem uma curiosa repórter brasileira como protagonista. Interessei-me por conhecer a narrativa encabeçada pela corajosa e talentosa Sandra Garcia. O texto fluido e a diagramação eficiente corroboraram para que eu agarrasse o livro despretensiosamente em um meio de domingo e, admito, não foi fácil soltá-lo para os compromissos de meio da semana, até terminá-lo de ler na quinta-feira – prazo que teria sido bem mais breve, não fossem atividades pendentes que só me permitiram ter os fins de noite para avançar na leitura de Giacundino.

“O lado escuro da madrugada” é uma daquelas leituras cinematográficas que facilmente poderiam ser transpostas para um roteiro audiovisual. Dinâmico, fluido, linear, e elétrico, o livro prende sobretudo o leitor que busca uma distração literária, daquele tipo que diverte e entretém, função nobre da literatura, convém dizer. A narrativa, que se passa em São Paulo, versa em torno da jornalista e âncora de TV Sandra Garcia, que se obstina a desvendar uma série de assassinatos que ocorrem em seu meio profissional.  Para tanto, ela conta com o suporte, se é que assim podemos chamar a relação áspera entre ambos, do delegado Matarazzo, e de outros colegas da grande emissora TVG, entre eles o intrigante Fábio Guedes.

Talvez por ser o seu primeiro romance publicado, ou por escolha estilística mesmo, o autor opta por uma narrativa um tanto explícita, mantém constante a preocupação em descrever e explicar detalhes. Essa característica é transposta também nos diálogos – alguns deles não parecem ter saído de um círculo de conversa normal brasileiro. A impressão é de que o autor quer iniciar bem o seu livro, mas não tem muita segurança de como fazê-lo. Isso fez com que eu lesse os dois ou três primeiros capítulos com certa desconfiança. No entanto, para a alegria do leitor, o romance não demora a “engatar”.

A partir daí, conseguimos digerir todo o potencial de Roberto Giacundino. Sandra Garcia se torna simpática e empática. Seus conflitos nos interessam. Os assassinatos nos intrigam e nos enchem de curiosidade – ao ponto de despertar aquela sensação que todo leitor busca, a de não querer soltar um livro. Aos poucos o leitor vai ganhando elementos para imaginar um final, mas como todo bom livro policial, o mistério permanece até o último segundo – que pode ser bastante surpreendente para alguns.

Roberto aposta em clímax sucessivos – uma estratégia eficiente para os leitores mais ansiosos. É possível ver um tanto de Agatha Christie e, arrisco-me a dizer, também de Dan Brown na narrativa do autor. Há referências irônicas e facilmente identificáveis a grandes empresas do ramo da comunicação e personagem midiáticos brasileiros, a exemplo da grande TVG(lobo) e sua rival, uma emissora que aposta em novelas de cunho religioso (qualquer semelhança pode não ser mera coincidência). Além disso, a preocupação em trabalhar temáticas como violência, neonazismo e discursos de ódio também é admirável, embora por vezes ganhe um teor panfletário, o que acaba prejudicando o andar da carruagem – como se a receita de Giacundino chegasse perto de desandar.

Embora a diagramação interna favoreça o desenrolar da leitura, bem como a divisão curta de capítulos, o projeto gráfico não me agradou – a capa é uma daquelas que mais parece cartaz de filme. Obviamente, essa é uma percepção particular, que pode não ter qualquer relevância para um outro grupo de leitores mais afeito a este estilo visual.

A avaliação geral é de uma obra prematura, que de fato poderia ter sido melhor lapidada. No entanto, “O lado escuro da madrugada” prova-se um título interessante no mercado brasileiro de romances policiais – pouco explorado e do qual não podemos extrair ainda nenhum grande nome contemporâneo de referência. Optando por continuar nesta seara, Roberto Giacundino seguramente tem grande potencial para ser um dos que podem assumir a direção deste bonde. Aguardemos, com expectativa, os próximos títulos.

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Sobre o Autor

Andressa Vieira

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema e mestranda em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN). É diretora deste site.

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