Há um belíssimo prédio na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, que hoje está sob a custódia do Banco Santander – e, portanto, hoje o conhecemos como Santander Cultural. Nele, há um cinema onde podemos apreciar um bom filme alternativo (que fica dentro de um cofre, para um charme extra) e lanchar em um Café bem agradável (fechado para reforma atualmente). São dois atrativos adicionais, que se somam à beleza arquitetônica. Como brinde, exposições de arte se alternam ao longo do ano, sempre proporcionando algo interessante para os visitantes.

Este é o lugar que foi brutalmente violado, não pela arte em si – arte, quando viola, apenas faz o seu papel – mas por pessoas inseguras e ignorantes que, não sabendo lidar com o estímulo ao qual foram submetidos – outro papel de toda arte, estimular e causar reações –, promoveram o festival de desinformações que levou a um repúdio em massa nas redes sociais e que culminou no fim prematuro de uma exposição centrada em artistas/temas/mundo LGBT (QueerMuseu). Mas vamos por partes.

“L’Origine du Monde” (1866), de Gustave Courbert, exposta no Musée d’Orsay, em Paris. Putaria paga com o dinheiro do governo francês, com livre acesso às criancinhas. Só no Brasil mesmo.

Toda arte expressa um conceito, uma ideia, e que se projeta da mente do artista no mundo físico através de técnicas e manipulação de materiais – seja papel e caneta, mármore, tinta óleo… ou literalmente qualquer outra coisa. Duvida que lixo pode se tornar arte? Abra a aba do lado e pesquise Vik Muniz. Um tubarão? Pesquise “A impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo”, de Damien Hirst. Seres humanos transformam seu corpo em arte através da dança, mas também facilmente se tornam esculturas (procure “Bodies: The Exhibition”). Essa lista seria interminável, justamente porque os limites da arte são os limites da imaginação humana e de como o artista consegue traduzir para o meio físico uma ideia.

A primeira coisa a ser apontada é que todos nós temos todo o direito de não apreciar uma obra de arte, seja ela qual for. Em parte, a subjetividade reina e nossa apreciação do que é estético ou não muda conforme as influências e a sociedade em que vivemos. Por outro lado, enquanto expressão de uma ideia, é fato que irá gerar respostas diferentes de acordo com o receptor.

“O Sonho da Mulher do Pescador” (1814), obra em xilogravura do japonês Hokusai, publicado em livro de arte erótica (Shunga) e exposto em vários museus ao redor do mundo. Obviamente, estímulo à zoofilia.

E aqui, voltamos ao caso do Santander Cultural.

A acusação principal realizada à exposição era de que estaria promovendo a pedofilia, a zoofilia e desrespeitando as instituições católicas. Sobre isso, quatro obras foram selecionadas a dedo (dentre 80 obras expostas) para “corroborar” esse argumento. Afora isso, a acusação geral era de que a exposição seria uma promoção da “indecência” às custas do dinheiro do contribuinte.

“Saturno devorando seu filho” (1819-1823), de Francisco Goya, exibido do Museu do Prado, em Madri. Obviamente apologia ao infanticídio com dinheiro do contribuinte espanhol. Vergonha.

É óbvio que a tônica do discurso que levou ao encerramento da exposição é de uma homofobia velada que caracteriza a direita ultraconservadora brasileira atual. Ao distorcer totalmente uma quantidade mínima das obras expostas e atribuindo a eles um viés criminoso, o grupo conseguiu “uma vitória” em cima do que burramente classificam como “esquerda” – ignorando que todo o debate LGBT deve estar além dessa dicotomia estúpida.

Dizer que as obras em questão promovem zoofilia ou pedofilia é de uma má fé tremenda. Para dizer o óbvio, uma obra de arte não é uma propaganda, é uma peça de apreciação (discussão, crítica e admiração). O suposto “incentivo” à pedofilia provoca a discussão da sexualidade em crianças – não no sentido de sexualizá-las, mas como as identidades se formam desde cedo. Mais ridículo ainda, o “incentivo” à zoofilia é uma obra de Adriana Varejão de 1994, discutindo dominação e dependência colonialista. Todo o “desrespeito” à Igreja é na realidade a desconstrução de mitos e ícones, principalmente questionando a opressão que ainda hoje é marca da religião católica.

O fato de eu fazer as leituras acima não significa que você deve concordar comigo e muito menos que deve concordar com a proposta dos autores. A discussão e o questionamento, a produção de sentido e o debate, vejam só, fazem parte desse universo! Você pode discutir a validade da ideia, pode questionar a técnica utilizada, a arrogância do autor ou mesmo a relevância da proposta. Claro que pode! Mas não pode, contudo, querer calar ideias válidas, que representam pontos de vista consolidados na sociedade e manifestas através de arte apenas por discordar delas.

E é isso que aconteceu com a exposição no Santander Cultural.

É triste notar a ignorância das pessoas que levou a essa situação. Provavelmente nunca tiveram nenhum contato com o mundo da arte e caem de paraquedas em meio a uma discussão sob a qual não têm nenhum domínio e sem qualquer guia para ajudá-los a interpretar o que está à sua frente. Não há nada ali que se classifique como escandaloso para qualquer pessoa que já tenha visitado museus de arte. Diabos, não há nada ali que se classifique como escandaloso dado o cotidiano das grandes cidades.

“Leda e o Cisne” (Século XVI), de Michelangelo. Zoofilia explícita exposta na National Gallery de Londres (Censura zero anos). Absurdo.

Irônico é pensar que todo o caso, ao invés de enfraquecer, apenas irá reforçar os artistas responsáveis. Toda arte se alimenta de atenção, controvérsia e holofotes. Seja através da repulsa ou da admiração, arte se dissemina exponencialmente conforme é debatida. E quando combatida, ganha ainda mais força.

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Sobre o Autor

Diego Paes

Formado em Relações Internacionais, Mestre e talvez Doutor (me dê alguns meses) em Administração, mas que tem certeza de que está na área errada. Pode ser encontrado com facilidade em seu habitat natural: salas de cinema. Já viu três filmes no cinema no mesmo dia mais de uma vez e tem todas as fichas do IMDb na cabeça. Ainda está na metade da lista dos Kurosawa e vai tentar te convencer que Kieslowski é o melhor diretor de todos os tempos.

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