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Nota do Leitor: (2 Votos)
5.4

Não há nada mais assustador hoje em dia que o noticiário. Embora o cinema ainda tente nos convencer de que aquele demônio exú caveira que apareceu no espelho é a coisa mais aterrorizante possível… não é. Assustador mesmo, hoje, é parar o carro no sinal de madrugada em uma rua escura. Ou ligação de parente de madrugada. Barulho no meio da noite na cozinha, particularmente, torço para ser uma aparição. Como ter medo de verdade de um brinquedo possuído com o Trump na Casa Branca? Com o euro do jeito que está, ver a Samara saindo de dentro da televisão é suave na nave.

Por essas e outras é seguro dizer que IT: A Coisa (IT, 2017) se sobrepõe a muitos filmes do gênero hoje em dia, explorando de forma nada sutil os medos terrenos além dos sobrenaturais de um grupo de pré-adolescentes em uma história que equilibra de forma sagaz terror, aventura e comédia, sem se furtar de temas adultos. Isso porque embora a obra original de Stephen King seja mais famosa pela figura do palhaço assassino – Pennywise – , essa é uma história que fala na verdade sobre como os traumas e medos da infância nos influenciam e moldam o nosso futuro. Com um espírito maligno que transcende tempo e espaço e adora se disfarçar de palhaço no meio, é claro.

Bill Skarsgård, como A Coisa (em sua versão Pennywise): “Você quer um Bal…” NÃO OBRIGADO SENHOR PALHAÇO MINHA MÃE TÁ ME ESPERANDO, TCHAU.

A trama se passa entre1988-89, na fictícia cidade de Derry, no Maine (estado que serve de cenário típico para Stephen King), conhecida pelas altíssimas taxas de desaparecimento de adultos e ainda mais altas taxas de desaparecimento infantil. Bill (Jaeden Liberher) é um pré-adolescente, com seus 13 anos, assombrado pelo desaparecimento do irmão mais novo. Inconformado, Bill resolve gastar as férias de verão na busca pelo irmão (vivo, ou mais realisticamente, morto), alistando para isso seu grupo de amigos – que vai gradualmente aumentando, conforme o verão progride.

O Clube dos Perdedores (como Bill e amigos decidem se chamar) é uma nova encarnação do grupo de amigos excluídos e bulinados que se unem para uma aventura inesquecível – o que muitos irão comparar imediatamente com Os Goonies, um favorito brasileiro, ou Stranger Things, mas que também lembra o grupo de amigos de Conta Comigo (outro clássico de Stephen King e da Sessão da Tarde). A química entre os garotos é o coração do filme, mesmo que alguns acabem tendo maior protagonismo do que outros. Nunca no cinema vi relação tão realista entre pré-adolescentes, que provocam, fazem piada, questionam e têm uma lógica própria de demonstrar respeito e apoio entre si. Isso é facilitado pela classificação etária do filme, para audiências maduras, e que permite mostrar com maior naturalidade essas interações: crianças que falam palavrão, provocam usando membros da família alheia, se apaixonam e descobrem a sexualidade aos poucos e de forma confusa.

O Clube dos Perdedores: carisma e química dos jovens atores é o coração do filme.

Todos estes elementos de aventura infanto-juvenil estão presentes no filme, sendo possível dizer que há traços do mesmo DNA de Stranger Things, embora com maior ênfase no terror e menos na nostalgia (inclusive, os irmãos Duffer, criadores de Stranger Things foram especulados para dirigir IT, mas foram preteridos por falta de currículo).

Em boa parte do tempo, IT consegue equilibrar os elementos de aventura com doses deliciosas de humor ao mesmo tempo em que gera tensão na plateia. Esses momentos surgem quando a criatura/entidade sem nome específico que dá nome ao filme (IT: pronome neutro singular da terceira pessoa, em inglês) explora os maiores medos das crianças: o trauma da perda da família, o medo de doenças, do abuso doméstico, de grandes tragédias, daquele quadro assustador e bizarro no escritório dos seus pais e, claro, de palhaços.

Quando esses elementos são explorados o filme encontra seus momentos mais assustadores. Esses momentos se tornam ainda mais interessantes quando contrastados com a urgência dos perigos da vida real. Afinal, como parar para se preocupar com um palhaço bizarro quando um bully acabou de te encontrar e está querendo gravar o nome na sua barriga com uma faca?

O problema, e isso é um grande demérito, é que mesmo sabendo explorar de forma brilhante esses elementos (todos presentes na obra original de Stephen King), o filme acaba vez por outra caindo na vala comum dos filmes de terror atuais. Este é o fator que segura o filme e o impede de se tornar realmente genial, mostrando-se muitas vezes genérico: confundir sustos e barulhos repentinos com a criação de uma atmosfera realmente amedrontadora. O desperdício fica evidente principalmente em cenas que começam verdadeiramente tensas e terminam de forma tola com Pennywise correndo em direção à tela chacoalhando a cabeça.

Os garotos explorando os esgotos da cidade, seguindo a tradição d’Os Goonies.

O potencial desperdiçado é realmente uma pena, mas não se pode ignorar os muitos pontos fortes do filme. Idealizado inicialmente por Cary Fukunaga (diretor da primeira temporada de True Detective, uma das mais brilhantes minisséries a agraciar a televisão), ainda é possível visualizar no filme a ideia e os conceitos que provavelmente deram início ao projeto. Por falta de controle criativo sobre o filme, Fukunaga acabou se afastando do projeto, deixando apenas a nós especular até onde o filme poderia realmente ter ido – os momentos genéricos parecem claramente obra e interferência de executivos de estúdio, querendo garantir maior apelo popular à obra.

Isso não quer dizer que o filme seja dirigido de forma incompetente – não é – mas que talvez estejamos assistindo na tela uma visão incompleta. O diretor Andy Muschetti (de Mama) faz um bom trabalho equilibrando os muitos temas do filme, de forma que as tentativas baratas de susto são uma decepção maior ainda – como acertar tanto e errar em questões elementares? Quanto as atuações, todas as crianças fazem um excelente trabalho, embora alguns tenham ganhado mais para fazer do que outros. Finn Wolfward, que muitos irão reconhecer como o Mike de Stranger Things, brilha como o linguarudo Richie; Jack Dylan Grazer, no papel do hipocondríaco Eddie, encarna uma excelente versão mirim de Joe Pesci em Os Bons Companheiros; e Sophia Lillis no papel de Bev carrega muito bem nas costas os temas mais pesados do filme. Bill Skarsgard consegue muito bem imprimir suas próprias ideias a nova encarnação de Pennywise, em uma performance realmente original e que se afasta da versão clássica de Tim Curry da mini-série de 1990 – embora sem atingir o mesmo charme de Curry.

Mesmo contando apenas a primeira parte da história (há uma segunda parte, com as crianças já adultas), o filme não parece incompleto, encontrando um final coerente e arredondado, que já tem a sequência final prevista para 2018. É uma pena que dificilmente o universo retratado irá parar neste segundo filme. Ainda em seu primeiro final de semana, IT continua quebrando vários recordes de bilheteria, o que não acontece à toa. Filmes de terror são um ganha pão cotidiano dos estúdios, que investem pouco e multiplicam várias vezes o dinheiro investido – o primeiro Annabelle faturou 38 vezes o seu orçamento, por exemplo. No caso de IT, que além de ter um orçamento modesto para padrões atuais ainda tem o mérito de ser um bom filme, certamente irá se mostrar uma franquia muito lucrativa. Resta esperar que o(s) próximo(s) filme(s) ignore(m) o terror barato e privilegie(m) o bom uso dos pontos fortes do livro de Stephen King.

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Sobre o Autor

Diego Paes

Formado em Relações Internacionais, Mestre e talvez Doutor (me dê alguns meses) em Administração, mas que tem certeza de que está na área errada. Pode ser encontrado com facilidade em seu habitat natural: salas de cinema. Já viu três filmes no cinema no mesmo dia mais de uma vez e tem todas as fichas do IMDb na cabeça. Ainda está na metade da lista dos Kurosawa e vai tentar te convencer que Kieslowski é o melhor diretor de todos os tempos.

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