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Produzir continuações em Hollywood é sempre uma tarefa complicada. Lá acredita-se que, para ser melhor, tem que ser maior. Ao longo da história do cinema, os exemplos de sucesso são consideravelmente menores que os de fracasso. Respeitar o material original e buscar a própria identidade podem ser escolhas importantes, e é justamente por isso que o imortal Blade Runner – O Caçador de Androides (1982) ganhou uma sequência à altura.

Blade Runner 2049 (2017) acompanha K (Ryan Gosling), um replicante que serve à polícia “aposentando” seus similares. Durante a rotina de trabalho, o policial se depara com uma descoberta que pode mudar toda a humanidade. O que faz uma obra desse porte ser revisitada hoje? Na década de 1980, Ridley Scott entregava um filme desafiador que não caiu nas graças do público, resultando num fraco desempenho de bilheteria. Também não havia brechas na trama que justificassem um novo olhar. Afinal, por que um segundo projeto sobre esse universo foi idealizado e teve tanta confiança dos estúdios, que disponibilizaram um orçamento de 150 milhões de dólares?

Acontece que a audiência mudou. Mesmo que Blade Runner continue não agradando a maior parte do público, hoje encontra eco em outras obras que, até certo ponto, são crias do filme oitentista. De lá pra cá, produções como a animação O Fantasma do Futuro (1995), Matrix (1999) e a série Westworld (2016) escancararam portas para temáticas tão intrigantes.

Novamente escrito por Hampton Fancher, aqui em parceria com Michael Green, o roteiro dá novos contornos ao embate Homem X Máquina, repleto de dilemas existencialistas. Agora não são apenas as “memórias” que auxiliam na construção do caráter, mas as crises de consciência e a solidão que tanto os humaniza. Se K é frio e inerte ao mundo em que vive, sua dinâmica com o holograma Joi (Ana de Armas) é o escape da realidade seca e dura, característica que nos aproxima do protagonista.

Impressionante como é, de longe, a relação mais sensível da projeção, remetendo ao instigante Ela (2013). Vemos aqui uma cumplicidade pautada na carência e na necessidade de comunicação entre duas inteligências artificiais: ele, tão melancólico que projeta seus anseios numa tecnologia imaterial, e ela, desenvolvida para “perceber” e dar importância ao seu “senhor”. Não por acaso ela carrega alegria no nome, já que é responsável por levar um pouco desse sentimento ao parceiro.

Aliás, essa alegoria nos nomes se repete com Luv (Sylvia Hoeks), braço direito de Niander Wallace (Jared Leto), que toma suas crias por “anjos”. É como se a produção quisesse mostrar que sentimentos essenciais ao Homem, como alegria (joy) e amor (love), pudessem ser originados das fontes mais inesperadas… Mas divago!

Como são nas boas ficções científicas, a história traz na distopia reflexos de algum problema da nossa sociedade atual. No caso de Blade Runner 2049, estamos falando de intolerância. Durante a projeção, a agressividade dos Homens é tangível, basta reparar a vida de K, marginalizada e sob insultos, que entenderemos sua apatia com o mundo ao redor. Substituindo as discussões em torno dos replicantes pelas questões raciais e de gênero, por exemplo, teremos um agonizante quadro da atualidade. O descaso é tão severo que o protagonista não tem, sequer, um nome, sendo identificado apenas por um impessoal código alfanumérico.

Como já era esperado, essa continuação potencializa características do capítulo anterior, mas o faz sempre preservando o material original e injetando personalidade. Os conflitos intimistas e individuais do trabalho anterior tomam proporções de comunidade. As máquinas aperfeiçoadas passam a sentir a vida com tanta ou mais sensibilidade que os nascidos de forma natural. Se isso é possível, porquê não tratá-las como iguais? Olhemos K novamente, já que a trama é desenrolada sob sua ótica. Após se dar conta que está preso numa investigação de relevância global, ele altera sua percepção. A frieza inicial se torna calor (humano?) e ele passa a sentir a vida de outra forma, demonstrado narrativamente através de gestos simples, como colocar a mão num enxame de abelha, e da transição de temperatura das cores. É a construção imagética da frase “mais humano que os humanos’, dita em cena por um dos personagens.

Toda a expansão do universo também se reflete no arrebatador visual do filme, que acompanha o crescimento narrativo com eficiência e beleza. A história agora não se limita à suja, hostil e cosmopolita Los Angeles. O designer de produção Dennis Gassner e o diretor de fotografia Roger Deakins, ambos de 007 – Operação Skyfall (2012), criam uma realidade palpável e crível. A concepção “poluída” de Los Angeles é um aprimoramento da vista em 1982, construída à base de penumbras e tons azulados que contrastam com publicidades multicoloridas.

Nesse aspecto, Deakins concebe uma preciosidade visual que ainda contribui para a personalidade do protagonista, enquadrado muitas vezes na penumbra, marginalizado. À medida que sai da inércia, a paleta de cores azuladas se transforma, ganhando temperatura levemente, como visto em San Diego, até chegar ao ápice, na alaranjada Las Vegas, justamente no momento mais inquietante do caçador de androides.

Diferente da paixão que emana em La La Land – Cantando Estações (2016), Ryan Gosling constrói uma figura distante, mas que ganha complexidade à medida que sua crise existencial se aprofunda. O ator segura o peso de liderar uma obra cultuada e se mostra à vontade para tal. Já Ana de Armas empresta doçura e carisma a Joi, além de também mostrar importância na construção do protagonista. A química entre os dois é um dos pontos altos. Já o restante do elenco tem ótimas aparições, embora curtas. Destaque para ambicioso e ameaçador Niander Wallace de Jared Leto e o retorno decisivo de Harrison Ford como Rick Deckard, sendo muito mais que um bônus para os fãs.

De forma impecável, Denis Villeneuve conduz tudo com ressentimento e amargura. Assim como em obras anteriores, o canadense não tem pressa alguma em jogar as informações na tela, utilizando com inteligência a extensa duração. A ficção científica neo-noir mantém características essenciais de seus gêneros, mostrando distopia, reflexões e uma investigação cadenciada que guia a trama. Villeneuve é cirúrgico, se mostrando a pessoa adequada ao projeto. Se no arrebatador A Chegada (2016) ele discursava sobre o Homem e a inerente necessidade de comunicação, aqui ele pinta uma tela de como seria a convivência sem diálogos, apenas construída sob o preconceito e o medo do desconhecido.

Atmosférico, contemplativo, visualmente arrebatador e filosoficamente relevante, Blade Runner 2049 sabe seu lugar no cinema. Sem faltar com respeito ao filme de 1982, ele se apodera do enredo até certo ponto, mas anda com as próprias pernas. Muita personalidade e um frescor delicioso para oferecer aos que, assim como eu, achavam que essa história não deveria ser revirada. Espetáculo!

OBS: Para a experiência ser mais efetiva, rever (ou ver) Blade Runner – O Caçador de Androides é primordial!

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Sobre o Autor

João Victor Wanderley

Radialista por formação e jornalista em formação. Minha paixão pelo cinema me trouxe ao Chaplin; minha loucura, ao Movietrolla. Qualquer coisa, a culpa é d'O Chaplin... E "A Origem" é o maior filme de todos!

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