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Apesar da estrelada adaptação cinematográfica de 1974 e de uma outra modesta feita para a TV em 2001, um dos mais aclamados romances policiais da literatura ganha nova e revigorada versão para as telonas. Dona de um visual deslumbrante, a nova versão chega para apresentar Agatha Christie aos mais jovens e, quem sabe, encabeçar mais uma franquia rentável.

Em Assassinato no Expresso Oriente (2017), um grupo de estranhos que compartilha uma viagem de trem é assombrado após um dos passageiros ser morto com violência. Porém, um dos viajantes é o aclamado detetive Hercule Poirot (Kenneth Branagh).

Partindo das palavras escritas em 1934, o roteiro de Michael Green faz o possível para entregar uma trama enxuta e bem construída. Um dos grandes desafios aqui é conseguir introduzir o grande número de personagens com rapidez e eficiência.

Algumas das apresentações são sutis e bem elaboradas, como nos casos de Edward Ratchett (Johnny Depp) e da Princesa Dragomiroff (Judi Dench), ambos construídos através de ação. Já os demais acabam nos inevitáveis diálogos expositivos. Devido a necessidade de ganhar tempo de tela, tal artifício só chega a ser um erro quando descamba para o caricatural, como nos casos de Pilar Estravados (Penélope Cruz) com seu puritanismo irritante, e do Conde Rudolph Andrenyi (Sergei Polunin) e a sua patética cena de luta.

O único personagem devidamente bem construído é mesmo Poirot. Um homem detalhista, perfeccionista e extremamente inteligente, o detetive também apresenta um tormento obsessivo para resolver o caso quando as dificuldades se apresentam. Nesse sentido, a atuação do norte-irlandês é muito eficiente, dando tridimensionalidade ao detetive. O semblante simpático e receptivo dá lugar à inquietação. O medo de falhar com a justiça, e também intelectualmente, é perceptível na alteração vocal e no olhar.

Conduzida basicamente em cima de diálogos, a investigação funciona em partes. A forma como é construída é ágil e segue a conhecida estrutura de jogar pistas para quase todos os suspeitos, abrindo o leque de possibilidades para a identidade do assassino. Entretanto, a forma como Poirot chega a algumas respostas é um tanto forçada. Seu conhecimento prévio de acontecimentos não mostrados em tela, por vezes, é relevante na dedução dos fatos, colocando-o à frente também do público nas descobertas e não se pondo em pé de igualdade.

O ponto mais forte da produção, sem dúvidas, é o visual. Branagh também assina a direção entrega um trabalho dinâmico e eficiente. A fotografia de Haris Zambarloukos encontra soluções muito criativas para explorar os estreitos corredores do trem, como no travelling externo que apresenta Caroline Hubbard (Michelle Pfeiffer) ou o plano de cima, que acompanha uma movimentação nos corredores mostrando o topo das cabeças dos personagens. E quando a movimentação de câmera não é suficiente, como nas cenas de interrogatório, a montagem de Mick Audsley encontra uma maneira de não deixar o ritmo cair.

As cenas externas se tornam imponentes graças ao design de produção de Jim Clay, trazendo a grandiosidade de locações reais beneficiadas por ótimos efeitos virtuais. O figurino de Alexandra Byrne mescla lindas peças que demonstram o luxo dos personagens e está em total sintonia com a direção de arte.

Se a produção de 74 trazia nomes como Albert Finney, Lauren Bacall, Ingrid Bergman, Vanessa Redgrave e Sean Connery, o deste ano não fica por baixo. Branagh, Pfeiffer, Cruz, Depp e Dench, dentre outros, elencam essa produção vistosa. Cada um tem seu momento, embora alguns tenham mais relevância narrativa que outros. Mesmo assim, é muito legal ver um elenco tão recheado.

Assassinato no Expresso Oriente é um filme divertido, ágil e agradável. Mesmo não sendo memorável, cumpre sua função de entretenimento com qualidade. É um deslumbre visual, claustrofóbico na medida certa, tem boas atuações e uma solução muito interessante para o crime que disseca. Os que não vão ao cinema esperando uma obra de arte podem apreciar uma boa sessão.

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Sobre o Autor

João Victor Wanderley

Radialista por formação e jornalista em formação. Minha paixão pelo cinema me trouxe ao Chaplin; minha loucura, ao Movietrolla. Qualquer coisa, a culpa é d'O Chaplin... E "A Origem" é o maior filme de todos!

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